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Luiz Carlos Merten

25 Outubro 2006 | 08h38

Confesso que não sou o maior entendido sobre a Boca (nem gosto muito do cinema que ali se fazia). Acho que há muito folclore, que há uma valorização excessiva da produção de alguns intelectuais que ali trabalharam. Mas no geral tenho a maior simpatia pela idéia da Boca, pelo tipo de cinema empreendedor dos que acreditavam que o mercado se toma à força e não com favores do Estado. Havia, nos anos 70 e 80, aquela guerra Boca versus Embrafilme. Nuno César Abreu volta-se para o período em seu livro Boca do Lixo, Cinema e Classes Populares, que li de um jato, literalmente (no vôo entre São Paulo e Londres). Abreu é professor da Unicamp e cineasta. Seu livro sai pela Editora da Universidade de Campinas. Posso não gostar de algumas coisas que ele diz sobre filmes e diretores, mas o livro é muito legal como análise (estética, política, econômica) de todo um período do cinema brasileiro. A própria questão do popular extrapola a fase dissecada pelo autor, porque deveria abordar também a chanchada carnavalesca, bem anterior à pornochanchada, que a Atlântida praticava no Rio, nos anos 40 e 50, e o conceito gramsciano do nacional e do popular, sobre o qual ele não se detém (porque não é o tema do livro), teria de passar por O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, que é o ‘meu’ Glauber, por mais importância que reconheça em Deus e o Diabo e, especialmente, Terra em Transe. Tendo já confessado minha ignorância sobre o cinema da Boca, quero dizer que, de tudo o que o livro diz e apresenta, a figura que mais me impressionou, pela clareza do discurso, foi o diretor que menos conhecia – Ody Fraga. Vou atrás do Ody. Canal Brasil, os filmes dele, por favor! Recomendo o livro, como matéria de reflexão, e aproveito para lembrar que hoje, no Canal Brasil, Ivan Cardoso apresenta o Cineclube. Às 23h35, o Ivan justifica sua escolha e às 23h40 passa o filme que ele escolheu, Convite ao Prazer, do Walter Hugo Khouri. É um complemento bem bacana ao livro do Nuno César Abreu. Convite ao Prazer representa aquele momento, ou fase, em que Khouri se aproximou da Boca e, produzido pelo lendário Alfredo Pólo Galante, tentou conciliar suas preocupações autorais com as necessidades orgânicas do cinema da Boca do Lixo. Muita mulher nua, muita bunda, muita safadeza e também o vazio existencial, a indagação filosófica e um erotismo no limite do metafísico, pois Khouri era atraído por uma ascese que seu personagem Marcelo só alcançava por meio da degradação do sexo. Nesse sentido, ouso afirmar que Khouri, por menos próximo que se sentisse da Boca (da qual fez parte), era o próprio paradigma de alguma coisa muito forte dentro daquele cinema. Nuno César Abreu diz que ele foi o paradigma de outra coisa – do cinema autoral, o porno-chic, que cineastas da Boca, como Jean Garret, tentaram fazer. Leia o livro, veja o filme. Khouri, sempre atraído pela beleza das mulheres, reuniu a fina-flor da Boca. Sandra Bréa, que ele transformou na sua Monica Vitti (ou, pelo menos, quis), Nicole Puzzi, Aldine Muller, Patricia Scalvi, Kate Lyra e Rossana Ghessa (que trafegavam entre a Embra e a Boca) e, claro, a mulher-objeto, que para mim, lá longe, em Porto Alegre, era a própria representação da Boca, Helena (salve ela!) Ramos.