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Cultura » ‘Boca’… de ouro?

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Luiz Carlos Merten

06 Maio 2012 | 14h37

Não consegui postar desde que voltei do Recife, e não foi por falta de disposição. Cheguei mais para o fim da tarde de quinta na Redação do ‘Estado’, aonde fui levar os bolos de rolo que me haviam encomendado – e que o povo comeu vorazmente, como as formigas predadoras de ‘Selva Nua’, de Byron Haskin. Não fiz muita coisa, a partir daí, porque tinha uma curva glicêmica marcada para a manhã de sexta, o que me forçou a 12 horas de jejum. Nestas circunstâncias, o que a gente faz? Fica em casa, sem se mexer. Zapeei na TV, tinha uns filmes de sacanagem no Multishow, umas cenas de lesbianismo – achei que ‘Paraísos Artificiais’, pós-Recife, estava prosseguindo na minha casa -, estacionei num dos canais, acho que Telecine, que mostrava ‘Alguma-coisa no Pântano 2’. A cena era de sexo. Um gordão mandava ver na loira, coito anal. Chegava o ser monstruoso da história do filme por trás e decepava a cabeça dele. A loiraça reclamava no estilo – ‘Por que parou? Parou por que?’ -, voltava-se para ver e cadê a cabeça do parceiro? Seria hilário, se não fosse tão mal filmado… Na sexta, após ultra-sonografia e curva glicêmica, cheguei passado do meio-dia no jornal. Tinha os filmes na TV, pintou uma meia página e eu corri para entrevistar Sílvio Da-Rin, para acompanhar a crítica de seu belo ‘Paralelo 10’, que estreou sexta. Ainda não me conformei que o júri do Recife tenha loteado os prêmios entre as ficções, ignorando os documentários. O único lembrado, ‘O Filho do Holocausto’, o foi pelo Jorge Mautner e não pelo que, para mim, é o belo trabalho de Pedro Bial e Heitor d’Alincourt. Saí para almoçar, ainda estou na sexta, e voltei à Redação para prosseguir com minhas matérias de domingo. Como sou diabético, o contraste – na curva – me produziu um enjoo que só fez aumentar. Quando consegui terminar, estava tão esgotado que fui jantar e… Para casa! Angel, a buldogue de minha filha, deve ter estranhado de me ver duas noites seguidas cedo, em casa. Vi um pouco da novela, ‘Fina Estampa’. Glória Perez que se cuide, João Emanuel Carneiro está querendo roubar dela o diálogo com o público C e D. Em toda novela da Glória tem o núcleo dos pobres. Aqui, é todo mundo pobre, ou falso rico, perdão, novo rico, o que é a mesma coisa. Achei divertido, e os coroas do bar são ótimos. Ná sábado, fui ver ‘Piratas Irados’ de manhã. Gostei, me diverti e até me emocionei – no reencontro do pirata com seu papagaio, que na verdade é uma galinha. O restante da tarde foi um preparativo para a Virada Cultural. Revi ‘O Bandido da Luz Vermerlha’ na programação que o Cine Windsor, uma das tradicionais salas pornô do centro de São Paulo, dedicava – dedica, ainda não terminou – ao cinema da Boca do Lixo. Aliás, não sei como, mas depois de escrever durante uma semana, no jornal e no blog, que o ‘Boca’ de Flávio Frederico é ex-‘Boca do Lixo’, consegui escrever, no texto de premiação, ex-‘Boca de Ouro’ e passou por todo mundo, sendo publicado como tal. Flávio Frederico encaminhou um e-mail a meu editor, que fez a retificação, mas o problema, sorry, é que hoje, ao fazer uma pesquisa sobre os prêmios de ‘Paraísos Artificiais’ – para uma matéria no ‘Caderno 2’ de amanhã -, vi que meu texto foi distribuído pela Agência Estado e jornais de todo o Brasil reincidiram no erro! Merda, não? Prometo prestar mais atenção, e o filme ainda vai estrear, mas me pergunto se não terá sido uma reação inconsciente ao prêmio de direção que o júri do Recife atribuiu a Flávio Frederico? Achei exagerado, para não dizer despropositado, e quem sabe não transformei o lixo em ouro como forma de valorizar o troféu? Enfim, revi o ‘Bandido’, que começou com meia casa e foi aplaudido no fim da sessão, mas, sendo honesto comigo mesmo, tenho de admitir que o cult de Rogério Sganzerla – que não revia há tempos – me pareceu ontem mais desconchavado do que descontínuo. Gosto, claro, mas saí com uma sensação esquisita. Voltei ao Windsor para (re)ver ‘A Margem’, que também não via há tempos. Desta vez, havia menos público e metade dele saiu. Ficamos, uns gatos pintados. O filme de Ozualdo Candeias, pelo contrário, foi uma descoberta. Nunca gostei tanto. Corri para o Dom José, outra sala pornô, para ver a pré-estreia de ‘Vou Rifar Meu Coração’, mas rolou um estresse – o DVD estava a caminho e não chegou. Desisti de esperar e entrei, com algum atraso, na sala Olido, lotada, a tempo de ver Gene Kelly ‘Cantando na Chuva’. Depois daquilo, a virada acabou para mim. Estava nas nuvens, não ia me arriscar vendo outra coisa. Fui para casa, dormi com os anjos e aqui estou, na Redação do ‘Estado’.