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Luiz Carlos Merten

27 Julho 2007 | 14h27

Alguém me pediu que falasse sobre Bobby, o longa de estréia de Emilio Estevez. Confesso que não fiquei muito empolgado, apesar do interessante desenho de personagens, mas me considero meio impossibilitado de criticar, pelo menos agora, porque vi (e revi) o filme em aviões da Air France, a caminho e de volta de Tóquio, por ocasião da pré-estréia mundial de Homem-Aranha 3. Ou seja, nunca vi o filme inteiro – as versões para aviões são sempre reduzidas e eu sei lá o que reduziram. Mas a sensação é de que o filme oferece menos do que promete. A idéia de mostrar diversos personagens num mesmo espaço – o hotel em que o aspirante à presidência dos EUA, Robert Kennedy, foi assassinado nos anos 60 – é muito curiosa. Mais para Paul Thomas Anderson do que para Robert Altman – mas sem a eficácia dos dois –, Emilio Estevez tece todos os fios que unem essas pequenas vidas confrontadas com o grande acontecimento histórico que vai repercutir em todo mundo. O objetivo de fazer um filmes desses, no momento atual, é evidente. Estevez, filho de Martin Sheen e irmão de Charlie Sheen, não reza pela cartilha republicana de Reagan, Bush & Cia. Talvez, muito provavelmente, a evolução da história dos EUA no século passado tivesse sido outra, se John Kennedy não tivesse sido assassinado e, depois dele, seu irmão Bob. Não quero entrar em exercícios de conjeturas – se… se…se… –, mas acho legal que um filme como Bobby volte aos revolucionários anos 60, quando havia uma expectativa por mudança na contracorrente do que é o mundo, hoje. Não quero ser nostálgico, e nem acho que o filme seja, mas só isso já me parece salutar. Há uma coisa de que gosto (muito) em Bobby. É da Sharon Stone. Ela está ótima fazendo a perua cabeleireira, bem anos 60. Me lembra aquele filme – Conflitos de Amor, de Jonathan Kaplan –, também desenrolado nos anos 60, em que a Michelle Pfeiffer faz outra cabeleireira, ou esteticista, que larga tudo para ver Kennedy e a primeira-dama Jacqueline, de passagem por Love Field, o aeroporto de Dallas, no Texas. Foi ali que começou a tragédia de 23 de novembro de 1963. Michelle, que faz uma clone de Jackie Kennedy, é mais sonhadora. Sharon tem os dois pés plantadas na terra. Se não é – em bom português – uma vagabunda, ao menos parece. Sharon é maravilhosa neste tipo de papel, basta lembrar sua performance em Cassino, do Scorsese. Depois da explosão de Instinto Selvagem, fora uma ou outra exceção (tipo Cassino), Sharon não tem feito muita coisa importante. Apenas pequenos papéis, episódicos, de vez em quando. O Festival de Cannes nunca fica completo sem ela. Em maio, Sharon chegou e ocupou aquele tapete vermelho. É impressionante – ela parece ter nascido para o red carpet. Sharon tem o brilho da estrela. É sensual de uma forma muito natural. Angelina Jolie também estava em Cannes. Pisou no mesmo tapete vermelho. Angelina criou uma persona pública. É como se ela representasse Angelina Jolie no tapete vermelho de Cannes. Faz aquelas caras e bocas para ser sensual. A outra, embora mais velha, simplesmente é. Até espero, ao ver Bobby completo, que o filme seja melhor do que me pareceu. Só não gostaria de me decepcionar com Sharon Stone.