Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Bob Dylan

Cultura

Luiz Carlos Merten

05 Março 2008 | 13h32

Não sou o maior fã do mundo de Bob Dylan, mas admito que é por desconhecimento. Quero ver se descubro no show desta noite o mistério do fascínio que ele exerce sobre tanta gente. Ele tem de ter um carisma muito grande no palco. Eduardo Bueno, o Peninha, que há séculos (uns dez anos, no mínimo) foi meu editor no ‘Caderno 2’, não precisava nem de deixa para deitar a falar sobre o Dylan. Chegava a ser chato. Jotabê Medeiros me contou ontem como ele abriu um concerto dos Rolling Stones no Brasil (no Morumbi, onde Valdívia massacrou a Fiel, no domingo) – diz o Jota que foi o maior show que viu na vida, melhor do que o dos Rolling Stones, a seguir. Bob Dylan é um mito que Todd Haynes tentou decifrar em ‘I’m not There’, desenvolvendo de outra forma a narrativa em puzzle de ‘Velvet Goldmine’, do qual tenho de admitir que gosto mais. Adoro Todd Haynes, mas não tive muita paciência de ver toda aquela gente (Richard Gere, Cate Blanchett, Christian Bale, Heath Ledger) interpretando o cara em ‘Não Estou Lá’. Talvez tenha me enganado. É o tipo do filme sobre o qual não consigo emitir um juízo definitivo, preto no branco – gostei ou não gostei. Mas tenho lá a minha memória afetiva do Dylan, no western ‘Pat Garret e Billy the Kid’, que Sam Peckinpah realizou no começo dos anos 70. Justamente ‘Pat Garret’ é citado por puristas que não perdoam a Peckinpah ter usado os versos de ‘Knockin’ on Heaven’s Door’ numa cena decisiva de morte. Mas eu amo ‘Pat Garret e Billy the Kid’. Revi o filme em 2006, no encerramento do Festival de Berlim. Peckinpah sempre esbravejou porque seu western foi lançado (em 1973) numa versão remontada pelo estúdio, a Metro, com 106 min. Outra versão, lançada em 1988, depois que ele já tinha morrido (quatro anos antes), elevou a metragem para 122 min. A versão restaurada em Berlim tinha 115 min, ou seja, menos do que a de 1988, mas incluía 73 segundos que o restaurador, Paul Seydor, considerava essenciais – e que ficaram de fora 18 anos antes. ‘Pat Garret’ é ‘O’ filme. Como já vinha ensaiando antes, Peckinpah não encara o bem e o mal, o certo e o errado como definições éticas. São escolhas que nascem muito mais da realidade (e da gratuidade) de cada um. Pat escolhe a lei, Billy a desordem, mas os dois são rigorosamente iguais e isso, que para muita gente enfraquece o conflito entre ambos, na verdade é o que faz a grandeza do filme. Quando revi ‘Pat Garret e Billy the Kid’ em Berlim, tomei um choque. É um filme sobre o hoje, sobre as transformações do mundo globalizado, feito por um profeta que já enxergava isso 35 anos atrás, talvez por todos os problemas que enfrentava em Hollywood, sempre às turras com seus produtores. Pode ser que exagere. Perdoem-me, se for assim. Debitem na minha conta de apaixonado por cinema (e pelo Peckinpah, um dos maiores rebeldes de Hollywood). E o filme tem Bob Dylan no papel, pequeno mais importante, de ‘Aliás’. Até onde sei, foi Kris Kristofferson, que também vinha da música, quem trouxe Dylan para o projeto. Peckinpah, conta a lenda, nem o conhecia. Foi um caso de amor à primeira vista. Contratado para fazer o tema de Billy, Dylan compôs a trilha, lançou o álbum no mesmo ano (e ainda foi ator).