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Luiz Carlos Merten

03 Novembro 2009 | 17h30

Meu negócio é escrever sobre filmes e, a partir deles, tentar entender o mundo, as pessoas (e a mim mesmo), mas confesso que tecnologia não é assunto que me inspire muito. Ela é ferramenta e, como tal, me interessa, mas não mais do que isso, sorry. Todo esse prólogo é para chegar ao que vou dizer agora e pode escandalizá-los. Lembro-me de que em 1995 integrei um grupo de brasileiros que foi ao Japão, a convite da Fundação Japão. Rubens Ewald Filho, Walter Hugo Khouri, Carlão Reichenbach, Ana Carolina, eu… Lembro-me de que era o auge do laser disc e Rubinho queria comprar a Virgin de Tóquio, onde todas as obras-primas que moldaram seu imaginário estavam à venda naquelas bolachas. Às vezes me pergunto o que Rubens Ewald Filho fez com todos aqueles laser discs que prometiam a melhor reprodução audiovisual? Vi-o hoje na sessão de ‘2012’, mas não me ocorreu de perguntar, talvez porque o problema tenha surgido depois. Recebi aqui no jornal dois lançamentos em blu-ray da Warner, ‘Sinfonia em Paris’, o musical clássico de Vincente Minnelli, e ‘Os Goonies’, de Richard Donner. Não tenho nem home theater, mas o tal blu-ray não entra nas minhas cogitações. Li alguma vez, em algum lugar, que essa mídia não tinha futuro e que ia repetir o fiasco do laser disc. Como sou ingnorante na matéria, espero que vocês tenham uma resposta para essa questão. O blu-ray, afinal, segue vendendo (e bem). Na recente visita à Disney, pude ver como quase toda a produção do estúdio do velho Walt já foi vertida (ou está sendo…) para o tal blu-ray. À espera, falo dos filmes. Vincente, pai de Liza Minnelli, foi um dos grandes de Hollywood, e não apenas por seus musicais. Amo seu melodrama ‘Deus Sabe Quanto Amei’ e se relevo a mediocridade de Ron Howard é porque, antes que o cineasta, quem me vem, quando tento me lembrar dele, é o garotinho que me encantou em ‘Papai Precisa Casar’, bela comédia (sentimental) com Glenn Ford como viúvo em busca de afeto. Foi acho que a estreia de Ron Howard no cinema, antes de seus trabalhos como ator para George Lucas (‘Loucuras de Verão’) e Don Siegel (‘O Último Pisatoleiro’). Há no cinema de Minnelli um mundo de sonho em choque com a realidade. Isso transparece mais facilmente nos musicais, em ‘Sinfonia de Paris’, cujo título original vem da sinfonia de Gershwin, ‘An American in Paris’. Gene Kelly dança o balé final, que dura, sei lá, meia hora, e ele atravessa Paris em busca de Leslie Caron, procurando-a na cidade recriada pelos quadros de grandes pintores. A cor, a cenografia, a dança, aquilo tudo é sublime e você não precisa rezar necessariamente pela cartilha do musical para se deixar envolver. ‘Sinfonia em Paris’ recebeu o Oscar de melhor filme de 1951, mas Minnelli não emplacou o Oscar de direção, atribuído ao George Stevens de ‘Um Lugar ao Sol’. ‘Os Goonies’ surgiu mais de 30 anos depois, produzido por Steven Spielberg, com roteiro de Chris Columbus e direção de Richard Donner, que já assinara ‘Ladyhawke, o Feitiço de Áquila’ e iria iniciar a série ‘Máquina Mortífera’. Faz tempo que não revejo ‘Os Goonies’, mas eu adorava a história daqueles garotos que buscam o tesouro de um pirata e a trilha é fornecida pelo Max Steiner de ‘As Aventuras de Don Juan’ (com Errol Flynn), de cuja partitura Donner se apropria (como ‘homenagem’). Tenho ‘Sinfonia de Paris’ em DVD, mas ‘Goonies’… Teria de checar. Acho que não tenho. Se tivesse, dependendo de Leonard Maltin, deveria lançar ao lixo. Ele considera ‘Os Goonies’ excepcionally noisy. Noisy? Devemos ter visto filmes diferentes…