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Luiz Carlos Merten

12 Março 2010 | 10h24

Por curiosidade, fui ver o que nossos dicionários de cinema dizem de Otto Preminger. Rubens Ewald Filho o trata a pontapés, como um blefe. Ele sustenta que Preminger teve a sorte de substituir Mamoulián em ‘Laura’, assumindo uma produção cuidadosamente planejada e que não poderia deixar de dar certo. O que Rubinho não conta é que havia sido planejada por Preminger e que, justamente porque Mamoulián se afastava do programado, ele foi afastado. A revista francesa ‘Avant Scène du Cinéma’ publicava roteiros, acrescidos de informações de bastidores e análises dos filmes concluídos. Comprei o de ‘Laura’, que tem fotos do set de Mamoulián. A mesma cena, como ele a via, e como foi filmada por Preminger. Adoro Mamoulián – e acho que ele fez avançar a própria linguagem do cinema, com a sua ‘Rainha Cristina’ –, mas aquelas fotos são um desastre, uma vulgaridade horrorosa, Judith Anderson usando uma túnica meio grega e Gene Tierney com um modelito de lascar. Nada da sofisticação (europeia) que Preminger imprimiu a ‘Laura’. Jean Tulard, até por ser francês – e os franceses adoravam Preminger –, reconhece sua importância. Ele bate na tecla de que Preminger, tendo trabalhado com Max Reinhardt, depois de estudar direito e filosofia, fez a ponte entre o expressionismo e a evolução do filme policial. Por isso mesmo, segundo Tulard, seu apogeu teria sido no filme noir, que Preminger exercitou em clássicos como ‘Laura’, ‘Passos na Noite’ e ‘Alma em Pânico’, numa linha que foi até ‘Bunny Lake Desapareceu’, em meados dos anos 1960. Por mais que goste dos filmes noir de Preminger, minha percepção é diferenciada. Preminger atravessou os anos 1950 brigando com o Código Hays para poder falar de sexo e drogas, fez cinema de ‘gênero’ (western e musicais), mas o ‘meu’ Preminger é o da fase das grandes produções, quando ele descobre o formato Panavision e muda sua mise-en-scène para ajustá-la ao novo espaço. Em filmes como ‘Exodus’, ‘Tempestade Sobre Washington’, ‘O Cardeal’ e ‘A Primeira Vitória’, falou sobre o embate entre o homem e a instituição e a precariedade do humano diante de engrenagens (a revolução, a Igreja, o Exército) que o superam. Nunca houve um autor como o Preminger da grande fase. Reconhecendo a ambiguidade do mundo, ele desenvolveu um método narrativo baseado naquilo que a ‘Enciclopedia Ilustrada del Cine’ define como ‘escritura branca’. Preminger perseguia a objetividade e procurava interferir o menos possível, para deixar o espectador livre (e com a última palavra). Mas, graças a uma rigorosa mise-en-scène, Preminger nunca deixou de reafirmar posições. Não há plano mais belo do que o do final de ‘O Cardeal’, justamente quando o personagem de Tom Tryon é investido como príncipe da Igreja e a luz, incidindo sobre seu rosto, revela a opacidade do velho cujas escolhas o fizeram abdicar da própria vida. Esse sentimento eu também experimento diante do personagem de David Oppatoshu, o velho revolucionário, que passou a vida na cadeia, pagando por suas convicções. A cena de David Oppatoshu com Sal Mineo, quando o garoto revela que foi abusado e agora ele quer ser terrorista, no fundo para se vingar, tem uma densidade e uma força emocional arrasadoras (e Mineo, que formara com James Dean e Natalie Wood o célebre triângulo de ‘Juventude Transviada’, era gay. Há algo ali que transcende a imagem. Mineo seria morto mais tarde, presumivelmente por um michê.)Preminger realizou sua derradeira obra-prima em 1965, ‘Bunny Lake’. Ele continuou filmando até 1979 (e morreu em 1986, aos 80 anos), mas o restante de sua obra foi sendo, cada vez mais, motivo de consternação para os críticos que antes o idolatravam. Alguns ainda defendem ‘Dize-Me Que Me Amas, Junie Moon’, mas Rubens Ewald Filho e Jean Tulard estão unidos na constatação de que tanto ‘Skidoo se Faz a Dois’ quanto ‘Junie Moon’ são medíocres e malfeitos. Serão, ou ‘Junie Moon’ será? Nunca revi o filme, mas tinha meus motivos para me emocionar com aquela história da união de três outsiders – a garota de rosto deformado, o negro e o paraplégico – contra um mundo que instituíra que a beleza é o fundamental, privilegiando o exterior sobre o interior. Lembro-me, de qualquer maneira, que Maurício Gomes Leite, o crítico e cineasta mineiro, era um apaixonado defensor de ‘Junie Moon’. Eu próprio escrevi, na antiga ‘Folha da Manhã’, em Porto, um extenso artigo laudatório a ‘Rosebud’, que havia sido recebido a pancadas em todas as frentes. A aventura de espionagem talvez fosse o filme mais cifrado e enigmático do cinema – o botão de rosa do título, como piscar de olhos a ‘Cidadão Kane’, não é mera coincidência – e o que eu mais gostava era o fato de, naquela intriga desenrolada no Oriente Médio, o personagem do agente judeu ser o mais negativo, como se Preminger estivesse querendo se distanciar da etiqueta de sionista aplicada a ‘Exodus’, um dos mais belos filmes, senão o mais, feito sobre o tema da revolução. Estou redigindo este texto no jornal. Cheguei cedo, antes das 8, para fazer daqui o programa da rádio. Ontem, fiquei longe do blog por motivos que vocês vão perceber daqui a pouco. As mudanças no ‘Caderno 2’, no ‘Telejornal’ e no ‘Estado’, como um todo, implicaram em trabalho redobrado neste primeiros dias, que ainda são de adaptação. Daqui a pouco, faço uma entrevista internacional por telefone, À tarde, tem cabine – ‘Amélia’ –, mas eu quero mesmo é rever Costa-Gavras, ‘Seção Especial de Justiça’, onde é mesmo?, Às 17h30, na Galeria Olido. Apesar do horário, sugiro que vocês também (re)vejam. Minha capa de hoje do ‘Caderno 2’ é a entrevista feita com Leonardo DiCaprio, em Berlim. Zanin amou ‘Ilha do Medo’. Eu tenho cada vez menos paciência com Martin Scorsese. Aguardo a manifestação de vocês.