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Luiz Carlos Merten

25 Dezembro 2011 | 12h07

PORTO ALEGRE – Não, não é o Billy Elliott, mas o Budd. Não irei diretamente ao ponto. Permitam-me seguir meus atalhos, como sempre. Sempre me perguntei se foi mera coincidência. Por volta de 1960, enquanto os novos cinemas pipocavam ao redor do mundo, Hollywood embarcou em duas aventuras custosas. Duas superproduções históricas, hoje a gente diria ‘blockbusters’. A Cleópatra de Elizabeth Taylor e ‘O Grande Motim’, de Marlon Brando. A Fox já estava em plena pré-produção de uma Cleópatra com Joan Collins quando os custos começaram a inflacionar, a estrela foi substituída por Liz Taylor e ela pediu não apenas o maior salário até então pago por um papel – US$ 1 milhão – , como substituiu o diretor Rouben Mamoulián por um homem de sua confiança, Joseph L. Mankiewicz, com quem havia feito ‘De Repente, no Último Verão’. O que ninguém poderia prever era o pesadelo em que se transformariam as filmagens, com as sucessivas doenças e internações hospitalares de Liz que foram prorrogando as datas e aumentando os custos. Quando a produção finalmente deslanchou, o filme já estava custando não sei quantas vezes mais que o previsto e Mankiewicz ainda teria de enfrentar as consequência midiáticas do então considerado ‘affair do século’, quando Liz se enrabichou com Richard Burton e no mundo inteiro não se falava em outra coisa. “Cleópatra’ quase levou a Fox à bancarrota e o que salvou o estúdio foi o sucesso de ‘A Noviça Rebelde’, com Julie Andrews, em 1965. Simultaneamente, a Metro também quase foi para o brejo quando Marlon Brando despediu o diretor Carol Reed e exigiu que o roteiro de ‘O Grande Motim’ fosse reescrito também não sei quantas vezes. As filmagens no Havaí viraram outro pesadelo porque Brando queria saber de tudo, menos filmar, o que não deve ter sido fácil para Lewis Milestone, o diretor substituto, administrar. Brando, na época, era o terror dos diretores e também despediu Stanley Kubrick no set de ‘A Face Oculta’, assumindo a direção do western mais inusitado do cinema (com grandes cenas, é verdade). ‘O Grande Motim’, depois de muita confusão, estreou em 1962 para o repúdio unânime da crítica e eu sinceramente não sei se é tão ruim, porque nunca revi o filme. A lembrança que tenho nem é de Brando, mas de Richard Harris, que rouba as cenas em que aparece, pelo menos no meu imaginário. ‘O Grande Motim’ baseia-se num episódio real, o motim a bordo do Bounty, quando a tripulação, atiçada pelo imediato Fletcher, sublevou-se contra o capitão autoritário. No mesmo ano, 1962, estreou outro filme – é a coincidência a que me refiro no começo do post – que também coloca em discussão o autoritarismo nos mares, só que esse outro tem algo mais. ‘Billy Budd’ baseia-se no livro póstumo de de Herman Melville e como toda obra do autor mergulha fundo no estudo da natureza humana e em temas de natureza mais metafísica. Billy, o grumete, poderia ser um personagem de Jean Genet. Belo, inocente, ele perturba a calma no interior de um navio, até pelo interesse – homoerótico – que desperta no capitão Claggart (Robert Ryan). Billy costuma ser comparado ao príncipe Michkin, de ‘O Idiota’, de Dostoievski. Sua beleza dói nos olhos dos outros, sua bondade incomoda. Temos outra situação de motim – de sublevação contra os maus tratos a bordo. O próprio diretor, o ator Peter Ustinov, faz o papel de Vere, o suboficial que vive segundo a letra da lei e que vai aplicar uma justiça sumária, o que sela a tragédia (não só para Billy, mas também para os que o cercam). Acabo de rever ‘Billy Budd’, que saiu em DVD. Há quase 50 anos, o filme foi demolido pela crítica, agora virou cult, no que, para mim, vai um certo exagero, porque não tem muito fôlego. Mas é curioso falar de ‘Billy Budd’. O que ‘O Grande Motim’ tem de espetacular, ‘Billy’ tem de intimista, como se tivesse sido feito ‘contra’ o outro. A cor é substituída pelo preto e branco, os cenários são estilizados e até a ação tem algo de teatral. (não ponho isso como defeito.) Melville discute tudo – bem e mal, culpa e inocência etc -, Ustinov busca transformar suas digressões filosóficas em ação. Não creio que ‘Billy Budd’ seja um bom filme, mas achei bom rever o filme. Um pouco pela belíssima fotografia de Robert Krasker – François Truffaut tinha toda razão quando dizia que os filmes em P&B eram mais bonitos -, mas também, e principaslmente, por causa de Terence Stamp, que iniciava aqui a carreira que o levou a filmar com William Wyler (‘O Colecionador’), Federico Fellini (‘Toby Domnit’, o episódio de ‘Histórias Extraordinárias’, adaptado de Edgar Allan Poe) e Pier Paolo Pasolini (‘Teorema’). O interessante é que Billy Budd já carrega as sementes de todos os papeis que o erigiram em mito dos anos 1960. Como ator, Peter Ustinov ganhou duas vezes o Oscar de coadjuvante, não me lembro se pelo Nero de ‘Quo Vadis?’, de Mervyn LeRoy, ou se pelo Batiatus de ‘Spartacus’, de Stanley Kubrick, mas com certeza pelo integrante do bando de ‘Topkapí’, de Jules Dassin. Ele também foi (duas vezes) Hércules Poirot. Foi um grande característico, com tendência ao maneirismo. Como diretor, além de ‘Billy Budd’, fez ‘Romanoff e Juliet’, transpondo a tragédia lírica de Shakespeare para a Guerra Fria, com John Gavin e Sandra Dee. Estou aqui viajando nas lembranças. Nunca soube que Peter Ustinov fosse gay, mas, mesmo que não fosse, ele devia entender do babado. Terence Stamp é bonito demais ou é o olhar dos outros sobre ele que faz do personagem algo quase insuportável de ver. Assistindo de novo ao filme, fiquei convencido de que Richard Brooks teve ‘Billy Budd’ como referência ao fazer ‘Lord Jim’, que adaptou de Joseph Conrad. Mas Brooks era mais um bicho de cinema. ‘Jim’ é um dos meus cults, vocês sabem.