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Bibi, ou de como Paulo Pontes rouba a cena do musical

Luiz Carlos Merten

05 Maio 2018 | 16h03

Não sou o maior fã de musicais, não preciso nem confessar, mas às vezes me surpreendo. Talvez não goste em especial dos da dupla Möeller e Botelho, que encantam meu editor, Ubiratan Brasil, mas ontem, Dib Carneiro e nossos ajmigos baianos, Djlma Thürler e Duda Woyda, não precisaram fazer muita força para que visse com eles Bibi. Impliquei de cara. A vida de Bibi Ferreira encenada como espetáculo circense, e nem foi o formato. Diante do meneur du jeu no palco pensava no Celavie de Jesuíta Barbosa em O Grande Circo Místico, e aí não dava, né? Como Jesuíta, sorry, no hay. Gabriel Villela vive prometendo trazer Jesuíta para o ‘nosso’ coletivo. Mal posso esperar. Jantamos depois com o diretor, Tadeu Aguiar e eu terminei elogiando, e fui sincero. A primeira hora do espetáculo foi quase insuportável para mim. Uma súmula da vida de Bibi, texto de Artur Xexéo. Teatro narrativo da pior qualidade. E, então, algo se passou no palco do Teatro Bradesco. O primeiro ato encerra-se com Bibi fazendo My Fair Lady. Sou velho o suficiente para ter visto Bibi como Eliza Doolittle, lá em Porto. Lembro-me das histórias que se contavam dela com seu homem da época, Édson França, vagamente citado. Não creio que o texto tenha algo a ver com a estrutura da cena. A montagem, quase cinematográfica, dos números de My Fair Lady, é coisa de direção. Me deu uma elevação. E aí veio o segundo ato – mágico. Amanda Acosta é muito boa no papel, mas melhora à medida que o tempo avança. Talvez tenha sido issdo wque ocorreu na vida. Bibi, durante quase todo o primeiro ato, é uma cantora anódina, sem personalidade. Conta a lenda qwue o texto do musical da Broadway foi produzido para Rex Harrison, o Professor Higgins, que nãso era cantor. Ele ‘diz’ dizia no palco (e na tela) as canções. Bibi até hoje faz isso. My Fair Lady pode muito berm ter sido o momento em que ela definiu seu erstilo. O segundo ato é mágico – nãzo wqueria que tivesse terminado nunca. O circo é sdubstituído pela avenida, vira aspoteose na escola de samba. A Viradouro canta Bibi. E o segundo ato tem a ligação com Paulo Pontes. Medéia, asliás Joana, Gota d’Água.
Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água
Amanda, repito, é muito boa. Vira Bibi diante do espelho, transformado em carro alegórico. Mas o segundo ato é de Guilherme Logullo, que faz Paulo Pontes. Que que é aquele cara? Teria de ver de novo, porque, além de Paulo, Guilherme integra o coro e, antes de ser individualizado, destacado, lá estava, anônimo. Depois, quando volta ao coro, até tentei ver quem era, onde estava, mas antes – não. Todo o trecho com Paulo compõe o melhor núcleo da peça. O amor, a arte, o engajamento político. A alienação. O comunismo. Na sequência, como fecho, vem Piaf. Non, je ne regrette rien. Essa segunda parte de Bibi me pareceu deslumbrante. E o espetáculo poderia continuar. Tive um único contato com Bibi na vida. Estava no exterior. Nova York, Paris, Lisboa? Devia estar em alguma junket e soube que haveria esse evento. Bibi anunciando o próximo espetáculo. Fui. Não creio que tenha rendido matéria. Teria de pesquisar nos implacáveis arquivos do Estado. Bibi já ultrapasssara, e muito, os 80. Havia um marido, secretário, sei lá, sujeito estranhíssimo, que agia como se fosse dono dela. Fiquei mal impressionado, até fantasiei sobre esse tipo de relação. Daria outra peça, não musical, algo no estilo dos grilhões psicológicos de Harold Pinter. É melhor o musical. Eu poderia cantar/A noite toda e mais/ia pedir… Canta, Amanda. Bibi é belíssimo.