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Cultura » Bette, a malvada

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Luiz Carlos Merten

06 Maio 2008 | 15h53

Conta a lenda que a Warner produziu ‘Jezebel’ a toque de caixa, um pouco para consolar Bette Davis, sua grande estrela, inconformada por haver perdido o papel de Scarlett O’Hara para Vivien Leigh, mas também para se antecipar ao lançamento do épico romântico do produtor David Selznick. Deu certo. Em 1939, quando ‘…E o Vento Levou’ estourou nas telas, iniciando um culto que permanece até hoje, Bette Davis integrou a lista de dez astros e estrelas mais importantes de Hollywood. Sei que, a partir de um determinado momento, virou moda dar pedradas em William Wyler, porque ele seria o êmulo da vieille vague, da velha onda. Com seu gosto (teatral?) por roteiros psicologizantes e grandes interpretações dramáticas, Wyler entrou para a história acho que justamente a partir de seus três melodramas interpretados por Bette Davis, entre 1938 e 41 – depois de ‘Jezebel’ vieram ‘A Carta’ e ‘Pérfida’, adaptados, respectivamente, de Somerset Maugham e da peça de Lilian Hellman. O que era Bette Davis nestes filmes? Era moderna avant la lettre. Jeanne Moreau disse certa vez que era possível aprender a interpretar só observando o método de Bette. Ela podia ser intensa, histérica, mas se o papel exigia era sutil. A aura de ‘malvada’ foi esculpida por papéis de mulheres ambíguas, até mesmo cruéis. A crítica Pauline Kael dizia que ‘A Carta’ era grande, mais até do que pelo diretor, por obra e graça da atriz, já que ela apresenta, neste filme, o mais brilhante (e perturbador) estudo da hipocrisia sexual feminina visto na tela (e olhem como o cinema evoluiu, no rumo da liberalização dos costumes, depois. Bette, numa época de repressão, foi definitiva.) Mankiewicz, que a dirigiu em outro de seus grandes papéis – a Margo Channing de ‘All about Eve’; a malvada do título brasileiro era Anne Baxter –, dizia que Bette fez tudo, sempre, da maneira mais difícil. Sua fama era de temperamental. Brigava com os executivos dos estúdios pelo direito de gerenciar sua vida, infernizava a vida dos diretores com seu perfeccionismo. Era uma rainha, e não por acaso interpretou sei lá quantas vezes o papel de Elizabeth, a 1ª. Foi Catarina da Rússia em ‘John Paul Jones’ (‘Ainda não Comecei a Lutar’), de John Farrow, o pai de Mia, e eu nunca vou esquecer o filme que vi no Cine Orfeu, em Porto Alegre, pelos cinco minutos geniais de Bette. O aventureiro norte-americano interessado em expandir o comércio com a Rússia pede uma audiência à czarina da Rússia. Ele faz sua proposta, ela faz cara de desdém. Ele se desespera, e diz que não está sendo corretamente traduzido. Bette diz então que fala inglês – e também francês, italiano, espanhol, chinês. Ela repete a mesma frase em vários idiomas e, se não me engano, está com um copo, ou uma xícara, na mão, sorvendo algum líquido com goles largos. Por Deus – o que era aquela mulher?

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