Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Besouro’ (2)

Cultura

Luiz Carlos Merten

21 Outubro 2009 | 15h29

Não sei nem o nome dos atores de ‘Besouro’, teria de pesquisar, mas tenho certeza que muitos de vocês terão prazer em me informar (outros vão me chamar de burro, preguiçoso, mas faz parte). Poucos filmes me deram tanto a sensação de ‘black is beautiful’. A tal cena de sexo como capoeira me emocionou – excitou? – e a atriz é uma deusa, realmente. O cara não é bonito, mas tem um corpão de atleta. BIB, preto é bonito. Saí do cinema tentando pensar alguma coisa neste sentido, sobre este resgate da negritude, que Cacá Diegues já vem fazendo há tempos no cinema, mas vejam como são as coisas. Vi o filme no Kinoplex, lá no Itaim e na saída, enquanto esperava o carro do jornal na Joaquim Floriano, parei ao lado de uma banca. Chamou-me a atenção a capa de uma dessas revistas de TV, com ênfase nas novelas. O público quer que Manoel Carlos mate sua Helena na novela das 8. Isso é duplamente inédito. Primeiro, a Helena negra, Taís Araújo, e agora o repúdio do público em relação a ela. ‘Besouro’ poderia vir como reforço a essa celebração da raça, mas parece que a coisa emperrou. Não creio que o problema, claro, seja Taís. Pode até ser estratégia do autor – Thiago Lacerda ainda não entrou na novela, pelo que ouço, e quem sabe a intenção não era essa? Dar uma virada na Helena, a partir da entrada do seu galã. Falo isso sem saber de fato, porque não acompanho a novela, mas ocorreu o seguinte. Durante o Festival do Rio, muitas vezes aproveitava um intervalo dos filmes da noite no Odeon para comer alguma coisinha nos restaurantes ali na Cinelândia. As TVs estavam sempre ligadas e eu dava uma olhada, en passant. Vocês sabem que não tenho muito apreço por Manoel Carlos e muito menos pelo marketing social de suas novelas. Houve até uma leitora, por certo procuradora do teledramaturgo, que me encheu de desaforos por causa disso. Ah, o inferno das boas intenções… É verdade que essa novela me pareceu pior que todas, um luxo excessivo e despropositado, mas, enfim, não estava acompanhando, só pegava uma cena aqui, outra ali. Mas me incomodava a Helena de Taís. Vi uma cena dela na plateia de um desfile de modas acho que em Paris. A apresentadora destacava a presença da top model brasileira Helena coisa e tal. Pensava comigo, mas ela é modelo, atriz ou garota de programa?, naquele velho estilo de identificação do ‘Casseta & . A maquiagem era exagerada, a roupa de biscate e nada disso tornava a personagem simpática porque Helena tinha uma pose. Parecia a Camila Pitanga da novela anterior, mas metida a fina, sem a autenticidade que caracterizava a garota de programa de Camila (e a fez tão popular). Talvez tudo isso pareça despropositado para vocês, mas me preocupa que a novela para celebrar a Helena negra tenha virado escada para mais uma consagração de Lilia Cabral, que é ótima, claro, e vai sempre roubar a cena, porque está em outro patamar. mas a ideia, presumo, não era essa. Misturei as coisas e talvez até tenha me permitido, mas achei realmente belos e sensuais os negros de ‘Besouro’. Gostei do casal e achei sensacional o olhar lascivo daquele jovem coronel que condensa só na linguagem dos olhos o que Gilberto Freyre racionaliza em ‘Casa Grande e Senzala’. Só lamento que a dramaturgia do filme tenha me parecido tão ‘rascunhada’. É isso, ‘Besouro’ me pareceu o rascunho do grande filme que eu esperava, o grande filme popular que não logra ser.