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Berlinale (7)/Meu primeiro choque. E foi com um filme do Brasil

Luiz Carlos Merten

12 Fevereiro 2016 | 15h18

BERLIM – Havia gostado do filme da Tunísia, Hedi, mas meu primeiro choque dessa Berlinale eu o tive agora com o novo filme (documentário) de Marcos Prado. Não fiz lição de casa e, pelo título, Curumin, até pensei, juro, que podia ser filme de índio. Tem tantos no cinema brasileiro atual. Mas Curumim, no caso, é o codinome de Marco Archer, o brasileiro que foi executado como traficante na Indonésia, depois de mais de uma década no corredor da morte. Marcos Prado é parceiro de José Padilha, que co-assina a produção. E Curumim era um garoto do Rio – praia, surfe, garotas. Drogas. O próprio Curumim duvidava de que fosse morrer e confiava, quem sabe, num deus ex-machina para salvá-lo aos 45 do segundo tempo. Ele conhecia o outro Marcos, o Prado. Tinham a mesma idade, chegaram a surfar juntos. E partiu de Curumim o pedido para que Prado fizesse um filme sobre ele, para não ser lembrado só como o brasileiro que foi executado por Jacarta (e mesmo que ele esperasse não o ser). O próprio Curumim, munido de uma câmera, captou as imagens na prisão de segurança máxima, enquanto Prado chocava-se com a embaixada brasileira no país, que achava que um filme seria prejudicial no processo de negociação diplomática para tentar resolver a questão. O filme não é sensacionalista, não é nem mesmo ’emocional’. Mas pode originar polêmica por cenas como a decisão de recriar o fuzilamento. É um choque, uma soco no estômago da gente. Marcos Prado terminou fazendo um filme geracional, sobre o sonho que acabou. O sonho de outra geração já estava em sua ficção Paraísos Artificiais, feita há uns três ou quatro anos. Antes, Prado dirigira Estamira, lembram-se? Um amigo dá um depoimento sobre como Curumim e ele já haviam traficado na Califórnia. O tráfico, como em Caçadores de Emoção – No Limite, era só uma forma de financiar a boa vida. “Éramos garotos tentando nos divertir”, diz o depoente. Em Los Angeles, Curumim participou de uma conexão colombiana, ligando-se a um pessoal de Pablo Escobar – cuja biografia Padilha fez para TV, numa minissérie da HBO com Wagner Moura. Tudo se conecta. Fiquei impactado com Curumin, que participa da programação do Panorama. Marco Archer, seu amigo italiano, Iuri. Fiquei tocado com os dois. Iuri teve a chance que Curumim não teve. Teve uma mulher que lutou por ele, e o acompanhou. O brasileiro expõe sua dolorosa solidão. E numa cena grava-se dançando como Michael Jackson. Foi uma imagem que me deixou chapado. Estou indo agora ver outro brasileiro no Panorama, e é o filme de Anna Muylaert, Mãe Só Há Uma. Mesmo fora da competição, o Brasil marca presença em Berlim.