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Cultura » Berlinale (3)/Os Coen, felizes da vida com sua comédia ‘menor’

Cultura

Luiz Carlos Merten

11 Fevereiro 2016 | 10h39

BERLIM – De passagem por Paris, o repórter comprou no aeroporto Cahiers du Cinéma. A revista resenha, na verdade despacha, o novo filme dos irmãos Coen, que está abrindo a Berlinale. Diz que a obra deles se divide entre grandes e pequenos filmes, e coloca Ave, César entre os segundos. Ave, César mostra George Clooney como Baird Shitlock, o astro que estrela um épico romano nos anos 1950. Josh Brolin faz o executivo que dirige o estúdio. Chama-se Eddie Mannix. Existiu um Eddie Mannix de verdade, mas Joel diz que o personagem deles é menos brutal, mais simpático. Baird, no filme, é sequestrado por um grupo de comunistas, e com isso voltam a Guerra Fria e a paranoia anticomunista que está em filmes como Trumbo, em cartaz nos cinemas, e Ponte dos Espiões, que os Coen escreveram para Steven Spielberg. No avião, o repórter assistiu a The Pawn Sacrifice, de Edwards Zwick, com roteiro de Steven Zaillian, sobre a mítica partida de xadrez de Bobby Fisher e Boris Spassky. Por que todos esses filmes. “Good question, mas não temos resposta. Essa história não é nova para nós. Já a tínhamos há anos, mas o roteiro é mais recente. Sem dúvida que deve haver um motivo para todos esses filmes sobre a Guerra Fria estarem surgindo ao mesmo tempo. Prometo pensar”, diz Joel. E Ethan – “Não sei dessa coisa de filmes maiores e menores. Do ponto de vista da produção, é dos grandes. Como se trata de um filme sobre os bastidores do cinema, temos épico romano, western e musicais, no plural, um aquático e outro de tap dancing (sapateado). Nosso diretor de arte nunca trabalhou tanto e nós tivemos o maior prazer de encenar diversos filmes dentro de um só.” O que nos leva aos gêneros – Ave, César mistura Barton Fink – Delírios de Hollywood, lá no começo da carreira dos Coen, sobre os bastidores do cinemão, com Ponte dos Espiões. E tem uma história de sequestro, tema recorrente para eles. Por que o sequestro? “Porque é bom para o drama”, diz Ethan. Para os irmãos, Ave, César é uma comédia fora de esquadro (odd) e um estudo de personagem. Como chefe do estúdio, Mannix/Josh Brolin controla o mundo. Baird/George é o tradicional dumb, idiota, dos filmes dos Coen. Os comunistas fazem sua cabeça e ele volta cheio de ideias para o estúdio. Faz discursos sobre desigualdades salariais e sociais. Mannix precisa esbofetá-lo para que volta à razão. “Foi a cena mais engraçada da filmagem. Josh teve de bater bastante em George”, e os irmãos, que compartilham o crédito de direção, riem para valer. O filme tem um elenco de astros e estrelas. George (Clooney), Josh (Brolin), Channing Tatum, Scarlet Johansson, Tilda Swinton, Frances McDormand etc. Ethan e Joel já pensavam nesse elenco? “George, com certeza. Esperávamos que ele aceitasse. Frances (McDormand) consegue fazer qualquer coisa (ela tem a cena mais engraçada, na sala de montagem). E Josh (Brolin) já virou da casa.” É o quarto filme de Josh Brolin com os irmãos e ele se pergunta – “Não sei por que gostam de mim? Até me deixaram entrar na sala de montagem.” Sure, why not, por que não?, admira-se Joel de que o assunto venha à tona. A grande surpresa do filme é Alden Ehrenreich, como o caubói cantor. Como Ethan e Joel o encontraram? “Numa audition. Alden veio para um teste e deu logo parta ver que era o cara.”