Luiz Carlos Merten

16 Fevereiro 2016 | 22h17

BERLIM – A par do belo documentário (nasa bordas) do italiano Gianfranco Rosi que poderá vencer a Berlinale – isso, naturalmente, se o júri de Meryl Streep souber o que fazer com Fuocoammare -, o festival tem mostrado documentários que Amir Labaki ficaria orgulhoso de exibir no É Tudo Verdade. Estou contando que ele apresente Curumim, para poder voltar a falar do filme de Marcos Prado. E existem mais dois em Berlinale Special. The Music of Strangers – Yo-Yo Ma and the Silver Road Ensemble, de Morgan Neville, fará a alegria de meu amigo João Luiz Sampaio. Com seu projeto que reúne 60 solistas de mais de 20 países, Yo-Yo Ma tem refeito, conceitualmente, a rota da seda que conectava a China ancestral com o restante da Ásia (e do mundo). Já foram 300 concertos em 34 países. O documentário dá conta do artista e seus músicos. Você não vai acreditar nos sons lancinantes que o sírio Kinan Azmeh tira do clarinete. Melodramaticamente, ouso dizer que são os lamentos da guerra que destroça toda aquela região do mundo. Por falar em guerra, o outro documentário é de Michael Moore, Where To Invade Next. Em filmes como Tiros em Columbine e Fahrenheit 11 de Setembro, Moore virou uma espécie de consciência raivosa da ‘América’ e o maior opositor do ex-presidente George W. Bush. Você se lembra da cena de Fahrenheit em que assessores de Bush filho reúnem investidores e lobistas em busca de apoio para a Guerra do Iraque e prometem que, depois da destruição do país, a reconstrução dará muito dinheiro a todos. Democracia, alguém escutou alguma coisa sobre democracia e o fim do absolutismo de Saddam Hussein? Não – mas de money, sim. Moore fez também um documentário sobre o sistema de saúde dos EUA, Sicko – S.O.S. Saúde. As seguradoras fazem de tudo para não pagar as necessidades dos segurados. Tem gente que até hoje não engole as cenas em que o bombeiro, herói do 11 de setembro, mas que contraiu uma grave doença pulmonar por conta do pó que aspirou, bate de porta em porta e não consegue atendimento. Um herói da pátria. Moore o leva para Miami, coloca numa lancha e leva para Cuba, onde ele é atendido pelo sistema de saúde da ilha falida de Fidel Castro. Não só é atendido como medicado, e ainda leva para casa, de graça, os medicamentos que, nos EUA, as seguradoras se recusam a fornecer. Mas, claro, se ele tivesse morrido, teria direito a uma bela cerimônia fúnebre, com direito a bandeira e tudo. Moore foi chamado de palhaço. Pode até ser, mas sabe onde está a ferida. E crava o dedo acusador. Michael Moore segue provocando, agora nos EUA de Barack Obama. Where To Invade Next, Onde Vamos Invadir a seguir? O próprio Moore dá uma de Brancaleone e invade, com uma bandeira, diversos países. O Exército de um homem só. O resultado dessa invasão é que Moore conclui que os EUA bem poderiam assimilar lições dos países invadidos para resolver graves questões internas. As férias pagas da Itália, as refeições escolares da França, o sistema educacional da Finlândia, a abertura da Alemanha para criticar seu passado etc. Michael Moore cancelou, na marca do pênalti, sua vinda para o festival. Deve ter chegado à conclusão de que o filme fala por si só, o que é verdade. Amir Labaki vai nos fazer o favor – espero! de transformar A Música de Estrangeiros e Onde Mais Invadir? em atrações do seu festival internacional de documentários.