Luiz Carlos Merten

15 Fevereiro 2016 | 22h25

BERLIM – Por conta da entrevista com Wayne Wang, perdi a sessão de imprensa de Alone in Berlin, que tive de recuperar à noite, na gala do Palast. O problema é que havia a premiação das Shooting Stars de 2016, as estrelas do futuro, e a sessão foi interminável. Um dos premiados foi o Damien de Quand on a 17 Ans, de André Téchiné, e aí eu descobri que anos atrás, ainda menino, ele fez um filme com Léa Seydoux sobre pobreza na Suíça, coisa meio surreal para quem enfrenta a realidade cotidiana do Brasil, mas, enfim, Kacey Mottet Klein – é o nome do garoto -, não é bom, é ótimo. E veio o Alone in Paris. Vincent Perez dirige a história (real) de um casal que combateu o nazismo, escrevendo e distribuindo cartões com denúncias sobre o regime de Adolf Hitler, entre 1940 e 43. Vincent Perez foi o La Molle de A Rainha Margot, de Patrice Chéreau, de quem foi ator no teatro e no cinema. Agora mesmo está em Paris, na montagem de Ligações Perigosas, de Christopher Hampton. Vincent deixou de ser um jeune prémier e resolveu investir sério na carreira de diretor. O filme, como ele declarou, é seu tributo à família judaica que foi parcialmente dizimada pelo nazismo. Emma Thompson e Brendan Gleeson formam o casal de protagonistas e o filme, embora tradicional, faz observações interessantes sobre o cotidiano da Alemanha (e Berlim) durante os anos de guerra. Havia um clima asfixiante de paranoia, uma corrente de intimidação e delação. Não creio que seja ‘premiável’, mas também não foi nenhuma perda de tempo. Na sequência, corri para ver Chi Raq, e aí surtei. Spike Lee trouxe à Berlinale um novo filme raivoso, mas que eu amei. O tema é a violência na América. Somente nos últimos anos, morreram em Chicago, Illinois, mais negros, vítimas de armas de fogo, que os fuzileiros que tombaram nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Spike Lee aponta o dedo para a ferida da própria comunidade afro-americana. O maior número de vítimas decorre das guerras de gangues, os confrontos de negros entre eles. E é nesse quadro que Teyonah Parris, uma deusa chamada Lisistrata, resolve mobilizar as ‘irmãs’, liderando, como na comédia do grego Aristófanes, um greve de sexo. No peace no pussy. Ou os caras depõem as armas ou podem dizer adeus às brincadeiras de cama com suas mulheres. Spike Lee fez uma sátira não naturalista e ruidosa, um filme que aborda o sexo de forma jubilatória – e como raramente (nunca?) se viu na produção norte-americana. O rapper Nick Cannon, Wesley Snipes e Samuel L. Jackson encarnam o mito dos ‘negões’ bem dotados e John Cusack tem um de seus melhores papeis recentes como o padre que conduz o culto de uma garota que morreu de bala perdida. Mas o filme é de Teyona e de Angela Bassett, que consegue ser mais bela e sexy do que quando a entrevistei em Veneza, há mais de 20 anos, por um filme de Kathryn Bigelow, Estranhos Prazeres. Spike Lee dá uma entrevista no fim da tarde de terça. Imagino que vá falar de Oscar, mas vai falar principalmente do culto às armas de fogo nos EUA. Vou dizer para vocês – há tempos não via um filme dele que me mobilizasse tanto. Michael Moore vai ter de caprichar, se quiser que seu documentário que também passa aqui, Where To Invade Next, seja mais contundente como crítica de uma sociedade que, como sabemos, só consegue resolver seus problemas pela violência.