Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Berlinale (16)/Wayne Wang, ressurgindo, quem diria

Cultura

Luiz Carlos Merten

15 Fevereiro 2016 | 10h47

BERLIM – Existe uma parte bizarra da programação aqui na Berlinale. Os filmes que integram a competição (Wettbewerb), mas passam fora de concurso. Isso mesmo – é nonsense, para dizer-se o mínimo. É o caso do novo Wayne Wang, While the Women Are Sleeping. Fazia tempo que não via um filme dele, e mais ainda que não entrevistava o coautor (com Paul Auster) de Smoke e Blue in the Face. Cortina de Fumaça e Acossado (é isso, não?). Gostei de ter visto Enquanto as Mulheres Estão Dormindo (e de ter entrevistado o diretor). O filme baseia-se num texto do escritor espanhol Javier Marias. Wang comprou os direitos, atraído pela situação. O diálogo ríspido entre dois personagens, um escritor e, talvez, seu personagem. Os dois conversam à beira da piscina, mas pode ser a projeção de uma fantasia do escritor, convertido em voyeur do homem mais velho que tem uma amante jovem. Wang trabalhava na adaptação quando soube, através do próprio Marias, que Takeshi Kitano, o Beat Kitano, interessara-se pelo material. Fascinado pelo ator e diretor japonês, que encarna, segundo ele, a ausência de limites entre bem e mal, Wang resolveu que só faria Mulheres com ele. Isso significava montar uma produção japonesa e filmar no Japão. Significava confrontar um mito. Kitano intimidou-o, de cara, dizendo que só gostava de fazer um take. Nada de repetir. Depois, sacaneava Wang. “Vamos fazer de novo”, pedia a toda hora. Valeu a pena. Wang fez o que não deixa de ser um thriller obsessivo à maneira de Alfred Hitchcock. É o seu Vertigo, Um Corpo Que Cai. Aos 67 anos, quase 68, e a cavalo entre a produção independente e Hollywood, o diretor deu uma ótima entrevista discutindo métodos/processos de produção e criticando o moralismo que transforma tudo, hoje em dia, em questão ética. O escritor projeta suas fantasias no outro homem, logo, é um pervertido. Um voyeur, talvez, e quem não é, no cinema, pergunta-se Wang? É seu melhor filme em muitos anos e, embora centrado nos personagens masculinos, tem as mulheres que dormem, e elas são sempre importantes para Wang. Ele se queixa – desde The Joy Luck Club, O Clube da Felicidade, colaram-lhe a etiqueta de ‘director’s women’, diretor de mulheres. Ele adoraria fazer filmes violentos como os de Quentin Tarantino, mas nenhum produtor acha que seria capaz. “Tenho de conviver com isso”, admitiu.