Luiz Carlos Merten

15 Fevereiro 2016 | 10h14

BERLIM – E Danis Tanovic conseguiu de novo. Anos atrás, na Mostra, ele gestou Terra de Ninguém, que ganhou o Oscar de filme estrangeiro. Mais recentemente, aqui mesmo na Berlinale, cravou um Urso de Prata por An Episode in the Life of an Iron Picker. Agora, ele volta com Morte em Sarajevo, que adaptou de Hotel Europa, de Bernard Henri-Levy e o dublê de filósofo e escritor veio para a coletiva de imprensa. Adoro a ideia do hotel como local de passagem, que Richard Quine, um dos grandes pouco valorizados de Hollywood, transformou em metáfora do capitalismo em Hotel de Luxo, nos anos 1960, com Rod Taylor e Catherine Spaak. O hotel em Sarajevo é agora metáfora da crise de valores da Europa, e do mundo, nessa segunda década do século 21. O centenário do assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, que deflagrou a 1ª Grande Guerra, permite discutir o que ocorreu na Europa e no mundo ao longo desses 100 anos. O que aprendemos como o Holocausato, se os genocídios se sucedem? A situação da Bósnia Herzegovina, a Grande Sérvia. Tanovic começa armando uma discussão conceitual num programa de TV. Simultaneamente, armam-se os conflitos não apenas de natureza social e política, mas humanos. Haverá um encontro de presidentes, que poderá ser prejudicado por uma ameaça de greve. O gerente das casa tenta persuadir os grevistas, apela para a força bruta. Sua assistente tem uma mãe que vai liderar os grevistas. Há um intelectual francês que prepara seu discurso e o segurança encarregado de protegê-lo. À beira de um ataque de nervos, pressionado pela mulher que quer um sofá novo, o cara entope-se de cocaína e faz m… Existe também a apresentadora de TV que discute com seu convidado. Ele se chama Gavrila Princip, como o assassino do arquiduque. Começam antagonistas, como os garotos do filme de André Téchiné, Quand on a 17 Ans. Mas há uma óbvia atração entre eles. Tanovic não resolve na cama as tensões do mundo. O relato toma rumos inesperados e chega a inverter a situação de 1914, o famoso incidente de Mayerling. Vou entrevistar o diretor, amanhã ou depois. Passando por uma TV que transmitia a coletiva, ouvi-o fazer a definição de pessimista e otimista. O pessimista acha que as coisas não mudam. O otimista sabe que podem piorar. Morte em Sarajevo tem concisos 85 min. Tanovic não desperdiça tempo. Condensa informações, cria elaborados movimentos de câmera (e inscreve dentro deles os atores). Belos planos sequências. E eu gosto dessa subversão de um cinema ‘cerebral’. Como em L’Avenir, de Mia Hansen-Love, os personagens discutem ideias. Mas são humanos e, daqui a pouco, o que importa é o sentimento, a incerteza, a dúvida, o medo. Gostei.