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Cultura » Berlinale (14)/Um Urso gay para o veterano Téchiné?

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Luiz Carlos Merten

14 Fevereiro 2016 | 17h07

BERLIM – É curioso como as coisas se passam nos grandes festivais de cinema. A toda hora somos confrontados com novos filmes, novas propostas, e novas escolhas. Saí de 24 Semanas convencido de que Julia Jentsch poderia ser a melhor atriz deste ano. Comi rapidinho e fui recuperar o (André) Téchiné que havia perdido ontem. E logo me bateu que o júri de Meryl Streep terá um trabalho danado. Porque Sandrine Kiberlain é tão ou até melhor que ela. Tudo isso são especulações, alguma coisas, como diz a professora de filô Isabelle Huppert em L’Avenir, de Mia Hansen-Love – outra grande atuação -, são fatos. Téchiné já participou diversas vezes da Berlinale, inclusive na competição. É um autor, ex-crítico, que tem encarado a própria homossexualidade, na vida como na arte. Quand on a 17 Ans remete à vertente de Roseaux Sauvages, lá atrás. Dois garotos, Damien e Thomas. São colegas de aula. Estranham-se, mas é desejo reprimido. Sandrine faz a médica, mãe de Damien. Ela assiste a mãe de Thomas. Ele é adotado e a mãe agora está grávida. Sandrine acolhe Thomas em sua casa, sob o pretexto de que ele estará mais próximo da mãe, que foi hospitalizada, e também da escola. A família habita nas montanhas geladas dos Pireneus. São três horas diárias de ônibus e caminhadas para Thomas. O filme passa-se ao longo de três trimestres. Começa invernal, termina solar, no verão. Não era intenção do cineasta tecer uma metáfora, mas, como ele diz, o espectador é livre para pensar como quiser e a leitura (liberadora?), da neve ao sol, não lhe desagrada. Sandrine vai na contracorrente. Sua personagem é feliz no inverno e infeliz no verão. O pai de Damien é um piloto do Exército. Passa longos períodos longe da mulher e do filho, comunicando-se por Skype. Quand on a 17 Ans tem ousadas cenas de sexo. Os rapazes, literalmente, não são moles. Expõem-se, até mesmo em audaciosos nus frontais. E são ótimos atores. Questões de identidade, de sentimentos. Anos atrás, Techiné fez um filme sobre um michê, J’Embrasse Pas. Não beijo. O beijo masculino virá em Quand on a 17 Ans? Tãtãtã-tã! No photocall, provocados por fotógrafos de todo o mundo, Kacey Mottet Klein e Corentin Fila beijaram-se no rosto. Não, não. Na boca, pedia a imprensa. O festival está apenas no quarto dia, mas muitos filmes aqui na Berlinale têm abordado a paternidade, a família. Se não levar o Urso de Ouro – nem o de Prata para sua magnífica atriz -, Téchiné bem poderia ganhar o Urso gay. O problema é que ele, em geral, vai para novos autores que estão saindo do armário, não para veteranos. Mas a verdade é que a humanidade e sinceridade de Techiné são tocantes.