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Cultura » Berlinale (12)/Cartas da guerra

Cultura

Luiz Carlos Merten

14 Fevereiro 2016 | 15h58

BERLIM – De Portugal veio um filme muito bonito, Cartas da Guerra, que Ivo M. Ferreira adaptou do romance epistolar de Antônio Lobo Antunes. As cartas que o escritor enviou à mulher grávida quando servia o Exército português na África, no começo dos anos 1970. Muita coisa aproxima Cartas de Tabu, de Miguel Gomes. A situação colonial, a fotografia em preto e branco, o romantismo. E, ao invés de jacarés, elefantes. Ferreira fez um filme intenso sobre homens na guerra. Filma a violência, o sofrimento, a solidão. Antônio é médico, mantém um diálogo com seu superior, um capitão progressista, que concorreu pela oposição na última eleição. O partido do diretor é o antimilitarismo – as minas causam estragos nos soldados. Um ho0m,em que perdeu a perna rerage com desespero – “Meu pai vai matar-me!” O ator Miguel Nunes faz pouco cinema mas é conhecidíssimo na TV portuguesa, como Ricardo Pereira, que faz o ‘major’, é conhecido na TV brasileira (na Globo). Margarida Vila-Nova, mulher do diretor, faz a mulher do Antônio dublê de médico e escritor. Ele a possui pelas palavras. E vive de longe a experiência de amadurecer, tornando-se pai. A imagem é suntuosa e eu gostei muito de ver Cartas da Guerra, mesmo que a duração. 105 min, tenha me parecido meio arbitrária. O filme tanto poderia ter meia-hora quando quatro horas. Não creio que, a despeito de suas qualidades, Carta tenha atraído muita gente. Os aplausos foram protocolares. Falta-lhe o pathos de Tabu, mas é bom.