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Berlinale (11)/Cordeiros e carrascos

Luiz Carlos Merten

13 fevereiro 2016 | 21:08

BERLIM – Continuo cabeça dura, sem colocar imagens nos meus posts, mas sugiro que os interessados busquem o site www.berlinale.de, no qual terão acesso a todos os eventos do dia e até a um arquivo com toda a histórias, em pictures, do Festival de Berlim. Depois de acrescentar meus posts anteriores do sábado, saí do hotel disposto a assistir a A Quiet Passion, em que Terence Davies não apenas biografa Emily Dickinson como investiga sua poesia, das maiores em língua inglesa. Acontece que, no Cinemaxx, durante a Berlinale, há uma feira de livros de cinema. E se há uma coisa a que não resisto mesmo nesses tempos de e-books é a um livro materializado – para pegar, folhear, exercitar todo fetichismo a que tenho direito (mas nunca rasurar. Livro é sagrado). Estou considerando se compro para meu editor, Bira (Ubiratan Brasil) é louco por musicais, um volume sobre Bob Fosse, que nem é tão caro, mas põe volume nisso – é pesado, difícil de carregar. Enfim, fiquei olhando, manuseando e comprei dois – Adventures of a Suburban Boy, a autobiografia de John Boorman, e I Do and I Don’t, uma história do casal em Hollywood, desde os tempos do cinema mudo, por uma autora reputada, Jeanine Basinger, que faz a curadoria dos arquivos da Universidade Wesleyan. O que quero dizer é, enquanto eu namorava os livros, a sala lotou e eu dancei. Entrei na sala ao lado sem nem perguntar o que ia ver, apenas para fazer hora esperando por Quand on a 17 Ans, de André Téchiné. Terminei perdendo também o Téchiné – vou ver amanhã -, porque não consegui desgrudar do filme que estava vendo (do Panorama) e ainda fiquei para o debate. Shepherds and Butchers, Cordeiros e Carrascos, de Oliver Schimitz, inspira-se in true eventos ocorridos na África do Sul (Pretória), em 1987. Um guarda do corredor da morte, daqueles que acompanham os prisioneiros que serão enforcados, teve um surto e matou sete pessoas numa estrada, todas (todos) integrantes de um time de futebol. O caso era cristalino, mas o advogado de defesa, contrário à pena de morte, conseguiu transformar o acusado em vítima de um sistema que distorce a personalidade e transforma homens em máquinas de matar. Bem que o diretor avisou que era um filme duro de ver. Pense em Richard Brooks, A Sangue-Frio, em Krszystof Kieslowski, Não Matarás. Schmitz não poupa nada. Os condenados rebelam-se, são cobertos de pancadas e há os que vão para a forca em camisa de força. Urinam-se, defecam e ainda existem aqueles cujo pescoço não quebra com a queda da alçapão. Um horror. Mas o filme é um alegato poderoso contra a pena de morte. Bandido bom é bandido morto, aqui ó. Para fazer sua defesa dos direitos humanos Schmitz não esquece os direitos das vítimas e isso só torna seu filme ainda mais complexo. Steve Coogan e Andrea Riseborough interpretam os advogados, pró e contra. Cada um melhor que o outro. Mas o mais impressionante foi o assassino. No filme, ele tem 17 anos na época do crime, e já trabalhava há um ano no corredor da morte. Subiu ao palco o ator – Coogan e Andrea não estavam. Garion Dowds é um moleque. E pequeno. Batia no ombro do diretor, que nem é um cara grande. Estava compreensivelmente nervoso. Foi aplaudido de pé, e eu me somei àquela torrente humana. Uma coisa dessas deve marcar uma pessoa pela vida toda.