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Berlim (8)/Sebastian Lelio e sua mulher fantástica

Luiz Carlos Merten

11 Fevereiro 2017 | 21h38

BERLIM – Sou aquele cara maluco que não considera Limite, de Mário Peixoto, o melhor filme brasileiro de todos os tempos nem Cabra Marcado paras Morrer, de Eduardo Coutinho, o melhor documentário. De Coutinho, prefiro Edifício Master, mas não é para bater nessas teclas que estou iniciando o post. Meus melhores documentários, acima de Edifício Master, são Viramundo, de Geraldo Sarno, e – primeiríssimo – Santiago, de João Moreira Salles. Até por isso, não preciso nem dizer com que expectativa aguardava No Intenso Agora, que passou no sábado no Panorama Dokumente (já estou no domingo aqui na Alemanha). Depois de um filme sobre o pai, Santiago, João faz outro sobre a mãe. Decepcionei-me, mas por um motivo tão delicado que não me sinto em condições de escrever agora sobre isso. Prefiro falar antes com o João, o que vai ocorrer amanhã, pela manhã. Mas foi uma bela sessão – era as única do filme, reunindo imprensa e público pagante. A sala (Cine Star 3) lotou, o público não arredou pé na hora do debate. A mística dos Salles – Walter ganhou o Urso de Ouro com Central do Brasil – é forte na Berlinale. Marcelo Gomes, que concorre este ano com Joaquim, e Daniela Thomas, de Vazante, estavam na sessão. Na sequências, vi o chileno da competição – Una Mujer Fantástica, de Sebastian Lelio, o mesmo diretor de Glória, com Paulina García. A questão da mulher está sempre na ordem do dia, mas Lelio agora vem com a questão da mulher transgênero. Um casal, o homem passa mal, a companheira o leva para o hospital, onde ele morre. A companheira é term, ID de homem. O hospital aciona a polícia, a família impede a protagonista de ir ao funeral e fazer seu luto. Tomam-lhe o carro, o apartamento e ela ainda apanha ao tentar se acercar do caixão. Mas a mulher fantástica não deixa batido e vai lutar pelo direito de ver seu homem morto e recuperar a cachorra – a Diabla. O filme, produzido por Pablo Larraín e Maren Ade – a diretora de Toni Erdmann -, aborda um universo de transgressão que leva jeito de agradar ao presidente do júri, Paul Verhoeven. E a atriz Daniela Veja, que faz o papel, é ótima, e transexual. Só quero acrescentar que, como o filme do João é longo – mais de duas horas – e teve debate depois, perdi O Jovem Karl Marx, que vou recuperar amanhã. Quem já viu está chapado pelo filme de Raoul Peck, programado fora de concurso, em Berlinale Special.