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Luiz Carlos Merten

29 Junho 2008 | 10h46

FARÖ – Não sei quando vou conseguir acrescentar este post, talvez hoje, domingo, se passarmos pelo Bergman Center, e mais certo que amanhã, ao chegar em Paris. Mas até é bom que redija ao azar, para acrescentar mais tarde. As impressões vão saindo mais livres. Temo estar passando uma impressão equivocada de Farö. A ilha é enorme e possui espaços como um misto de restaurante e concert hall, o (ou ‘a’) Kutens Bensin, no qual assistimos, ontem à noite, a um roqueiro famoso por aqui, Mason Ruffner, que gravou com Bob Dylan e excursionou com o U-2. Aliás, um breve intervalo – Estocolmo está coberta de cartazes e as lojas todas exibem propaganda de ‘Mama Mia’, o musical com Meryl Streep, Pierce Brosnan e Peter Firth, que, afinal, tem música do ABBA. De volta ao concerto, confesso que foi uma coisa meio kitsch (meio?), pois, de repente, o Ruffner atacou na guitarra o Concerto de Aranjuez, primeiro seguindo a partituura original de Rodriguez e depois em ritmo de rock pesado. Viajei, porque na minha lembrança o Concerto de Aranjuez está ligado aos anos 60, a uma fase da minha vida que foi muito marcada pela experiência do filme ‘Os Aventureiros’, de Robert Enrico, com Alain Delon, Lino Ventura e Joanna Shimkus. Nunca revi o filme e a verdade é que ele não desfruta de uma reputação muito boa, mas naqueles duros anos 60 o ‘funeral submarino’ de Letícia, a personagem de Joanna, foi uma coisa muito séria na minha cabeça. Tuio Becker tinha o disco, no qual não me lembro mais qual instrumentista espanhol executava o ‘funeral’ e ‘Aranjuez’. Muito ouvi aquele disco e ontem, na Suécia, distante milhares de quilômetros de casa, encontrei a minha ‘madeleine’ e viajei em busca do tempo perdido. Com as imagens da juventude, os amores, vieram os amigos, o Tuio. Viajei tanto que preciso retomar o fio da conversa. A ilha é enorme, tem esses inconvenientes da falta de luz, de água, de wi-fi, mas isso não é em tempo integral – o wi-fi, sim – e acho que o sentimento de solidão e isolamento vem muito mais do fato de sua população, além de reduzida, ser muito rarefeita. Existem pequenas concentrações, mas em geral as casas são isoladas, distantes uma das outras. Ontem à tarde, após assistir a ‘Farö Dokument’, o documentário de Bergman sobre a ilha e seus habitantes – o filme é de 1979 e, no fim, Bergman promete retomar a conversa com aquelas pessoas dali a dez anos, mas ele não concretizou o projeto -, saímos no que os organizadores da Semana Bergman chamaram de ‘Bergman tour’, mostrando a ilha do grande diretor. Me lembrei muito de Walter Hugo Khouri, que amava a Bergman quase tanto quanto a Josef Von Sternberg. Viajávamos num ônibus equipado com DVD e íamos vendo as cenas de filmes e os locais em que foram filmadas. Alguns acessos eram tão difíceis que passávamos para vans. Aqui nesta praia foi filmada a cena dos dois casais na água em ‘Através de Um Espelho’. Ali, naquelas pedras, a cena em que Bibi Andersson corre atrás de Liv Ullman, depois de tirar a foto e perguntando se ela a visitou em seu quarto, à noite, em ‘Persona’ (Quando Duas Mulheres Pecam). Mais adiante, o estúdio (improvisado) em que Bergman filmou ‘Cenas de Um Casamento’ e a casa dos personagens de Erland Josephsson e Liv Ullman. Acho que de toda esta viagem à Suécia nada foi mais belo do que este tour. Admito que é uma coisa para ter inveja – a boa inveja que vocês têm de certas experiências minhas, que gosto de repassar.