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Cultura » Beleza roubada

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Luiz Carlos Merten

03 Março 2007 | 18h58

Não me senti muito tentsado a postar nada sobre os filmes que estrearam ontem porque acho que não tenho mais a acrescentar, aqui, do que aquilo que já escrewvi no Caderno 2 sobre eles. Mas quero falar de um. Gosto do documentário À Margem do Concreto, do Evaldo Mocarzel, meu ex-editor no Caderno 2, que, em relativamente pouco tempo – nos últimos quatro ou cinco anos -, realizou tantos documentários quanto Eduardo Coutinho em quase 30 anos de carreira, mas Evaldo insiste em dizer que é um documentarista ocasional. Sua praia, diz ele, é a ficção. Isso vamos ver no dia em quie Evaldo fizer seu primeiro longa de ficção (o curta Retratos no Parque, que foi o trabalho de diplomação dele na escola de cinema, em Nova York, era ficção, mas esta é outra história). Na série ‘À Margem’, que começou com À Margem da Imagem, Evaldo tem tratado dos excluídos – moradores de rua, sem-teto. É um cinema de forte cunho social, mas acho intewressante como, em todos os filmes dele, mesmo o de que menos gosto – meu atual editor, Dib Carneiro Neto, diz que eu sempre arranjo um jeito de faLar mal de Mensageiras da Luz, o filme do Evaldo sobre parteiras da Amazônia -, ele dá sempre se projeta na tela e vira personagem de si mesmo. Não é bem por isso, ou não é só por isso, mas os documentários sociais do Evaldo sempre tratam do público e do privado, o que, no caso de À Margem do Concreto, sobre os movimentos de ocupações urbanas, vale para a cena em que ele foi filmar uma reunião de moradores, após a ocupação de um prédio, e flagrou com sua câmera a briga de um casal. Evaldo fez ali a sua ‘Cenas de Um Casamento’. Sei que Eduardo Coutinho e Jean-Claude Bernardetr adoram a cena. Se fosse ficção, talvez não fosse tão bem encenada, mas, como diz o Evaldo, é uma cena roubada. Ele estava lá com a câmera e ela aconteceu. Documentátrio tem dessas coisas. É por isso que os documentaristas dizem que, ao filmar, nunca sabem direito que filme vão levar para casa.