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Luiz Carlos Merten

30 Setembro 2007 | 01h24

RIO – Só quero registrar que gostei muito do filme de Carlos Alberto Riccelli, O Signo da Cidade, e a cidade é São Paulo, que também fornece o cenário para A Via Láctea, de Lina Chamie. Além de atriz e produtora, Bruna Lombardi, mulher de Riccelli, é a roteirista, e o roteiro dela é coral, com muitos personagens, o que permite a Riccelli soltar sua câmera entre essas múltiplas figuras, no estilo de Robert Altman. Vou ter de voltar a O Signo da Cidade, mas o filme me tocou muito e eu confesso que me emocionei tanto que chorei com as misérias humanas da grande cidade. O filme é triste, porque os personagens são tristes, sofridos, mas não é para baixo. Tem esperança. É outro filme sobre o qual espero falar muito. Conduzi à tarde o debate na série de encontros que a Première Brasil promove, e foi muito legal. Lá estava o distribuidor Marco Aurélio Marcondes, da Europa Filmes, que anunciou – logo depois da Mostra de São Paulo, O Signo da Cidade estréia em 15 de novembro. Aguardem. Não é que eu duvidasse que Bruna e Riccelli pudessem fazer um bom filme, mas confesso que me surpreendi. O Signo da Cidade é muito melhor do que pensava. Mesmo com o risco de misturar alhos com bugalhos, quero dizer que assisti, agora à noite, a Fados, de Carlos Saura. Um erro de programação me induziu a pensar que assistiria, às 21h30, à versão restaurada de A Idade da Terra. É o filme de Glauber do qual, decididamente, não gosto. Vamos ver qual será minha reação a esse filme que não vejo há bem uns 20 anos. Pois bem – A Idade da Terra passa amanhã. Cheguei ao Cine Odeon BR e o filme era Fados. Na série ‘confissões de Merten’, vou fazer mais uma. Não gostava muito do Saura da grande fase, a dos filmes alegóricos. Respeitava o cara, mas era uma admiração fria, intelectual. Gostei do primeiro filme dançado dele, Bodas de Sangue, mas depois achei que Saura começou a se repetir. Cheguei àquele ponto que as gente pode definir como – ‘Parem o filme que eu quero descer’. Embarquei de novo no cinema de Saura – viajei em Fados. O filme investiga o gênero musical que melhor expressa a alma portuguesa. Busca as prováveis influências africanas e brasileiras. O público não resistiu e aplaudiu, em cena aberta, Fado Flamenco, o diálogo do fado, como lamento da alma portuguesa, com a energia da dança espanhola. Eu também aplaudi, porque é lindo, mas me arrependi de não ter puxado os aplausos antes – fiquei chapado quando Chico Buarque canta o Fado Tropical. As imagens da Revolução dos Cravos embalam os versos – Ai, esta pátria ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai virar um imenso Portugal… Deslumbrante!