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Luiz Carlos Merten

09 Julho 2009 | 18h20

Saí ontem no meio da tarde para entrevistar Luiz Villaça, que mostra amanhã em Paulínia ‘O Contador de Histórias’. Na sequência, emendei com a sessão de ‘Meu Mundo em Perigo’, no 4º Festival do Cinema Latino-Americano. A consequêbncvia foi que deixei para redigir hoje meus textos para a edição de amanhã do ‘Caderno 2’. Mal tive tempo de comer alguma coisa e corri para o Memorial da América Latina, onde tinha encontro com Nelson Pereira dos Santos. O mestre está sendo homenageado com uma retrospectiva – parcial, é verdade, formada por apenas seis títulos. No sábado, ele dá uma aula magna. Nelson me confessou que não preparou nada. Ou melhor, preparou-se a vida toda. Vai falar de sua experiência, não teorizar. De volta a Paulínia, estou preso hoje e amanhã em São Paulo. Estava pensando em ir ao festival no sábado, mas não vou perder a lição de cinema do Nelson no Memorial (e espero que vocês também não percam). Já estou transferindo Paulínia para o domingo ou, quem sabe, para o encerramento, quando Daniel Filho estará mostrando ‘Tempos de Paz’. Afinal, também quero ver o novo Roberto Moreira, ‘Quanto Dura o Amor?’, no Festival Latino. Conversei mais de uma hora com Nelson Pereira dos Santos. Ouvi-o apresentar ‘O Amuleto de Ogum’ para uma plateia predominantemente formada por jovens. Ouvi, o que talvez fosse presunçoso, mas me tocou, um garoto, que nem mais era tão garoto, se aproximar dele, enquanto conversávamos, e dizer de sua admiração, acrescentando que quer ser cineasta e, quem sabe, um dia poderá ter a importância de Nelson no cinema brasileiro. Nelson contou que ‘O Amuleto’ nasceu do seu desejo de se aproximar de um mundo que negava. Quando filmava a favela, em ‘Rio 40 Graus’, nos idos de 1950, o jovem Nelson, imbuído da filosofisas marxista, olhava os ‘despachos’ espalhados pelo morro e pensava, consigo mesmo, que aquilo era ópio do povo. Anos mais tarde, Lenita, com quem era casado – sua adorada mulher que morreu –, pesquisou as religiões de transmigração, ou seja, a fuga de católicos para a umbanda e Nelson se interessou pelo assunto, mas não quis fazer um filme acadêmico, de recorte sociológico. Ele adentrou de peito aberto o universo do corpo fechado. Gosto muito do ‘Amuleto’, que tem uma vitalidade que me encanta. Amo a trilha brega do filme e as presenças de Jofre Soares e Annecy Rocha. Nelson me disse que foi ‘O Amuleto’, com seu sincretismo, que lhe abriu as portas para adaptar Jorge Amado. Confessou também que Jorge foi sempre uma influência – e está lá, com Joyce, em ‘Rio 40 Graus’ –, mas se tivesse de escolher entre a exuberância do baiano e o minimalismo de Graciliano Ramos, ficaria com o segundo. Tenho um encantamento especial por uma cena de ‘A Estrada da Vida’ – o despertar de São Paulo, às 5 da manhã, o povo indo para o trabalho, ao som dos sertanejos. Nelson analisou longamente a cena e fez seu mea culpa. Ele disse que infernizava o pai caipira, para que não ouvisse aquela música. Só bem mais tarde descobriu como fora preconceituoso e o filme com Milionário e José Rico nasceu dessa vontade, talvez, de ser justo, reatando com o que tentara proibir no pai. Falamos de crítica. Nós, os coleguinhas e eu, somos o outro. Nelson absorve todas as críticas com serenidade – pelo menos nós não temos o direito de destruir as cópias dos filmes (salvo retoricamente…) como queria fazer o chefe de polícia do Rio, o primeiro e mais furibundo crítico de ‘Rio 40 Graus’. Foi uma conversa prazerosa para mim. Adoro esses contatos que me ajudam a desvendar/elucidar o processo criativo dos diretores. Mais do que a minha função de crítico, é a minha alma de repórter. Ouvir o outro… Aprender…