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Luiz Carlos Merten

11 Março 2009 | 15h03

Tenho de agradecer a Zelito Viana pelo menos por uma coisa. Fui ver ontem ‘JK Bela Noite para Voar’, numa sessão à tarde, na própria assessoria do filme, a Belém Com. Tento sempre ver os filmes sem pré-conceitos, mas tenho de admitir que já fui meio exasperado porque Zé de Abreu me cansa de antemão. Além de ser sempre ele mesmo, Zé criou um estereótipo do gaúcho macho e autoritário que é uma coisa insuportável. Quando sobe ao palco do ‘palácio do festival’, em Gramado, ele meio que incorpora uma outra persona. O estanceiro de ‘Vingança’, o coronel de ‘O Menino da Porteira’, tudo isso me cansa. O que tenho de agradecer a Zelito Viana foi o fato de me haver mostrado como Zé de Abreu pode ser um bom ator, quando se liberta de certos cânones para criar um personagem. JK é o herói brasileiro para Zelito. O homem da ruptura, que representa a modernidade. O destemido que acha que a vida sem risco não vale a pena, mas recorre a Nossa Senhora na hora do perigo. O político sincero, que tem mulher, filhas, é devotado à família, mas não resiste a essa amante – e ela é tão decidida que também reage à tentativa de atentado contra o amado, respondendo prontamente à crise. Zé de Abreu não tem nenhuma semelhança física com Juscelino Kubistchek, como Marcos Palmeira, filho do diretor, não se assemelha nem um pouco a Carlos Lacerda. Mas ambos criam personagens complementares, numa fantasia política que não deixa de propor uma interpretação do Brasil. Em ambos os casos, a mulher, as mulheres são fundamentais. Letícia, a mulher de Lacerda (Júlia Lemmertz), e Mariana Ximenes, a princesa de JK. Privado de sua capa de autoridade, Zé de Abreu abraça o presidente bossa-nova e faz de JK um – ‘o’? – herói brasileiro. Até por causa dele, o filme que estréia depois de amanhã é simpático.