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Beijo de Sal, versão longa?

Luiz Carlos Merten

27 Abril 2007 | 13h10

RECIFE – Não adianta. Fiz tudo certinho, como vocês me ensinaram, mas perdi um post muito legal, sobre o curta Beijo de Sal, que vi ontem. Para garantir, cheguei a mandar o texto para um endereço de e-mail em São Paulo e para o meu pessoal, mas ambos chegaram em branco, o que me leva a crer que, desta vez, a burrada não foi minha, mas o computador é que estava bichado. Enfim, vamos de novo. Assisti ontem, mais uma vez, a Beijo de Sal, que é um dos curtas concorrentes aqui no Recife. Como sempre, o filme de Felipe Gamarano Barbosa provoca reações viscerais. Quem gosta, ama de paixão. Quem não gosta, detesta. Eu gosto e faço, talvez uma leitura muito particular, ligando, no meu imaginário, o curta do Felipe a Aquele Que Sabe Viver (Il Sorpasso), obra-prima da comédia italiana de Dino Risi, com Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant. É coisa minha, reconheço, pois o Felipe, quando o interpelei em Gramado, onde vi seu filme no ano passado, não tinha a mais remota idéia de que existia esse grande filme do Risi. Reencontrei-o faz pouco, após o debate dos curtas, e esqueci de confirmar se o Felipe viu Il Sorpasso, o que deve ser preocupação minha, mais que dele. Beijo de Sal não se parece a nenhum outro curta brasileiro recente. Mesmo os que têm propostas dramatúrgicas mais fortes não são tão fortes como essa história de dois amigos. O mais velho exerce uma influência, digamos, negativa sobre o jovem e hostiliza a namorada do rapaz que, na visão dele, passa a ser uma intrusa na relação dos dois. A situação chega a um ponto em que o homem mais jovem, acuado, briga com o outro. Atiram-se n’água, o coroa tenta afogar o garoto e, quando ele desfalece, o arrasta para a margem, onde, a título de respiração boca-a-boca, para salvá-lo, lhe aplica um beijo demorado. É o beijo de sal do título e expõe o subtexto homossexual que permeia o filme de Felipe Gamarano Barbosa, o que é uma diferença em relação ao filme antigo, do Dino Risi. Acho tudo isso desagradável, mas é uma abordagem muito forte do machismo, contra o qual Felipe pega pesado, confiante no seu taco. Nunca havia reparado, mas no fim há uma longa de lista de agradecimentos – num filme de orçamento zero, como o dele, Felipe diz que é preciso agradecer a todo mundo -, na qual se encontra o nome de Tom Kalin, diretor americano que fez Swoon. É uma história baseada no caso dos dois jovens que quiseram cometer o chamado ‘crime perfeito’ e que inspiraram um dos mais polêmicos trabalhos de Hitchcock – Festim Diabólico (Rope). O próprio Hitchcock não tinha apreço por Festim e tem de pedir a François Trufaut que se contenha, no livro com a entrevista que deu ao crítico e diretor francês, seu tiete devoto. Hitchcock achava um erro ter feito o filme usando um longo plano-seqüência, o que a tecnologia da época não lhe permitia e levou a certos truques para fisfarçar os raros cortes. Para o mestre, seu método baseia-se muito na montagem e, portanto, aquilo foi um equívoco, coisa com a qual Truffaut não concorda. Fecho o parêntese sobre Hitchcock e volto a Beijo de Sal. Felipe me contou que Tom Kalin foi seu professor na Universidade Columbia, onde ele cursou cinema, e grande incentivador para que fizessse seu curta. Acrescentou, e eu espero não estar sendo indiscreto, que Kalin, após longo hiato, estará numa das mostras paralelas de Cannes, neste ano, com seu novo longa, interpretado por Juliane Moore. Ôba! É curioso como, no Brasil, Beijo de Sal tende a ser subestimado, ou discriminado (feito por um cara que estudou nos EUA, assunto polêmico), mas no exterior é muito bem visto. O filme recebeu o prêmio de melhor curta no Festival de Guadalajara, o que eu não sabia (e acho que não teve muita repercussão na mídia brasileira). Mais estimulante, ainda, é saber que Sundance, onde Beijo de Sal foi exibido pela primeira vez, está cobrando do diretor a versão longa de seu filme. Poderá ser o próximo trabalho de Felipe Gamarano Barbosa, porque outros dois projetos que ele tem se passam no exterior e está sendo difícil levantar o patrocínio. Um se passa em Praga. Que cara metido!, brinquei. Aliás, usei o equivalente gaúcho para essa expressão – Que cara metido a besta! Felipe respondeu, também rindo, ‘Fazer o quê? Sou um cineasta expatriado.” Rimos ambos, mas depois eu fiquei pensando que sua afirmação era bem mais profunda. Está aí um caso curioso de diretor – jovem – expatriado na própria terra.