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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2006 | 12h43

Ontem passei o dia em casa, ainda às voltas com a desordem da minha biblioteca de cinema. Para complicar, houve não sei que problema e o computador não funcionava. Estou agora na redação do Estado. Fui ver ontem O Segredo de Beethoven, um daqueles filmes que exibem defeitos flagrantes, mas propõem uma experiência tão intensa que você até se esquece deles, concentrando-se nas qualidades. Não gosto muito da diretora de origem polonesa Agnieszka Holland, que começou como roteirista ta de Andrzej Wajda e criou certa fama com filmes que retratavam a realidade social e política do país, como Complô contra a Liberdade, com Ed Harris como um padre em luta com o regime comunista. Filhos da Terra (Europa, Europa)provocou sensação com a história do garoto judeu que vira representação do super-homem nazista e passa pelo filme (e pela vida) escondendo o pênis para ninguém perceber que é circuncidado. Holland não é exatamente sutil. Sua direção é bombástica, usando e abusando de firulas visuais tipo reflexos no espelho, desfocados e quetais. Ela me passa sempre a idéia do elefante na loja de cristais. Holland é um perigo. Não mudou nada em Beethoven, mas este retrato do gênio possui coisas impressionantes. Historicamente, é falso, no sentido de que a personagem de Anna, que a diretora usa para penetrar na intimidade do artista, nunca existiu – é uma licença poética. Mas é como se diz. A verdade da arte passa muitas vezes pela mentira e o retrato que Holland faz dos últimos anos de Beethoven, da sua surdez e da obsessão por arrebentar parâmetros musicais, integrando o ‘feio’ à beleza de sua arte, fornece uma interpretação muito convincente da voragem que consumia o artista. Gostei muito de duas coisas – as interpretações de Ed Harris e Diane Kruger, a top que virou atriz (e boa!), tendo sido vista em Tróia e Feliz Natal, e a espetacular cena em que Beethoven rege a Nona, mirando-se no espelho de Anna, já que não pode ouvir. A maneira de filmar os olhares, os gestos, a câmera que segue o movimento da mão de um e emenda com a do outro, pelamor de Deus! – achei de arrepiar. Gosto de filmes que me coloquem esse desafio, integrando o feio, o imperfeito a uma reflexão sobre o homem no mundo. Confesso que saí do cinema com uma pulguinha atrás da orelha. Gostei, aqui, com todos os defeitos que o filme possa ter, do que não gosto em Crime Perfeito, do Beto Brant. Ele vai querer me matar, mas acho que a idéia do filme do Beto é muito forte, mas o resultado é falso porque ele não tem coragem, ou não tem vivência, para ir fundo no grotesco da Agnieszka Holland. É a diferença que me parece que existe entre um filme ‘teórico’ e outro ‘vivido’. É verdade que o elenco de Holland segura todas e o do Beto, não. Independentemente do paralelismo, acho importante ver Crime Perfeito e gosto de poder recomendar O Segredo de Beethoven pelos defeitos, como pelas qualidades. Só não gosto do título. O original, Copying Beethoven, Copiando Beethoven, é muito melhor. Toca a essência do filme. Anna, a personagem fictícia, é copista. Quer ser compositora, mas termina copiando seu ídolo. O próprio Ludwig diz que ela precisa se libertar, que o mundo já tem um Beethoven, não precisa de outro. Achei muito interessante o que me disse o Dib Carneiro, meu editor no Caderno 2 e autor da peça Adivinhe Quem Vem para Rezar – ele acha que o roteiro do filme de Agnieszka Holland dá uma bela peça. Alô, alô André Garolli. Quem sabe o diretor de Zona de Guerra, que gosta de trabalhar no registro do limite teatro/cinema, faz essa passagem?