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Luiz Carlos Merten

02 Abril 2007 | 15h46

Não sou dado a experiências místicas e, menos ainda, religiosas, mas existem certas coincidências (que talvez não sejam meras coincidências) que me deixam um tanto perplexo. Ontem, no saguão do Tuca, quando fui ver Volta ao Lar, meio que me desgarrei do pessoal que estava comigo para ver, com todo cuidado, aquela exposição contando a história da União Nacional de Estudantes, a UNE. Hoje de manhã, cheguei no jornal e acrescentei o post que vocês leram. Na seqüência, fui ver se havia alguma sessão de imprensa de filmes que vão estrear. Havia uma de Batismo de Sangue. Estava louco para ver o filme do Helvécio Ratton que dividiu com Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, os principais prêmios do Festival de Brasília do ano passado. Gostei muito mais do Baixio e não entendo como um júri pode dar o prêmio de melhor filme ao trabalho do Cláudio e premiar Ratton como melhor diretor. Já que era para dividir, até entenderia, mesmo não concordando, se tivesse sido o contrário. Para mim, Baixio das Bestas é a coisa mais sensacional que ocorreu no cinema brasileiro desde Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. Cláudio Assis para melhor diretor! Não vou dizer que gostei de ver Batismo. Achei um verdadeiro filme de horror e nisso não vai nada de pejorativo, mas gostei muito do Caio Blatt, cada vez melhor ator. Outro dia conversei sobre ele com o Selton Mello e o Selton foi muito generoso, elogiando o Caio. Bons atores, e pessoas do bem, não ficam querendo se entredevorar. Já vi o Rodrigo Santoro elogiar o Selton, que elogia o Caio. Por que não? São todos talentosos, e há espaço para todos. Batismo é mais interessante de analisar do que de ver, o que parece uma contradição em termos. O tema é o envolvimento dos dominicanos com a resistência à ditadura militar, nos anos 60. Frei Betto, frei Tito. Ratton começa o filme dele pelo fim. Frei Tito se suicida. Um padre! Aí vem a história, de como ele, e alguns irmãos de fé, se envolveram com a ALN de Marighela e de como foram presos e torturados. Algo se quebra dentro de Frei Tito. O Papa (codinome do famigerado Fleury) o destrói interiormente. Já escrevi aqui que me impressiona muito o filme de Mel Gibson, A Paixão de Cristo. Até fiz uma ponte entre o Cristo de Mel Gibson e o Che, porque o tema, para mim, é a destruição da ideologia, ou do sonho, pela violência física. Ratton fez a sua Paixão de Cristo, mostrando como se quebra um homem. Seus fradinhos são ingênuos e, como tal, são cordeiros que vão para o sacrifício no embate entre a guerrilha e a repressão. Acho uma covardia dizer que Batismo de Sangue não é bom. O filme é bom, mas, como cinema, por mais cuidado que seja, é o quadrado perfeito. E, como discussão da guerrilha urbana, não me pareceu tão forte quanto Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat, que não busca só o testemunho histórico, mas busca entender o Brasil atual a partir do que houve nas prisões militares.