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Bate/volta

Luiz Carlos Merten

26 Junho 2014 | 09h02

Fui ontem ao Rio para um bate/volta. Saí pela manhã, às 9, e às 11 e pouco estava no set do novo filme de Sandra Werneck, que ela codirige com Mauro Farias – Pequeno Dicionário Amoroso 2. Tinha a capa de hoje do Caderno 2 e esperava fazê-la na sucursal, mas só aí descobri que havia jogo no Maracanã, era feriado no Rio e, durante o jogo, o espaço aéreo é fechado. Só reabriria à noite para voos que já estavam lotados. Fiz o que tinha de fazer correndo, antecipei a volta e 3 da tarde já estava de novo em São Paulo. Corri para o jornal, fiz a minha capa do Caixa Belas Artes, mais algum material de apoio para o portal (sobre o mesmo assunto) e só no fim de noite, em casa, pude enterrar o Eli Wallach, aqui no blog. Não vou antecipar o making of de Dicionário 2 – a matéria sai na semana que vem no Caderno 2 -, mas tenho de relatar que a cena era no cemitério São João Batista. Muitas vezes,. em meus deslocamentos no Rio, passo por ali, mas nunca tinha entrado. A cena filmada era na alameda principal, na saída de um enterro – com Andréa Beltrão, Daniel Dantas e Camila Amado -, e eu caminhei um pouco por ali. Descobri os túmulos de Santos Dumont, Carmem Miranda e Luiz Carlos Prestes, e confesso que, se tivesse mais tempo – se não fosse a loucura de ter de voltar correndo -, teria procurado o túmulo de Glauber, cujo enterro vi na TV, no Jornal Nacional. Não sei se ocorre com vocês, mas certas coisas que testemunhei entram numa espécie de névoa – a lenda se imprime sobre a realidade, como diria John Ford – e eu já não sei se foi assim, ou se ficcionalizei. Mas o enterro de Glauber foi uma cena que ele poderia ter filmado, tenho certeza. Dona Lúcia gritando -‘Meu filho, você não está descendo (à terra), está subindo’ – é uma coisa que faz parte do meu imaginário. Tem a ver com o transe glauberiano. E é curioso assistir a uma filmagem num cemitério. Há uma dessacralização do campo-santo. Os técnicos e artistas se espalham, os maquiadores, entre um take e outro, lançam seus pertences sobre as lajes dos túmulos, há uma balbúrdia de vida, de gente que toma água, café, que fala alto. “Ação!’, ‘Corta!’. Ri-se muito. Não é uma questão de desrespeito. Foram necessários 13 takes – 13! – para uma cena que era simples, mas tinha o som, o sol, os helicópteros da Copa, os figurantes, era muito detalhe. Por falar na Copa, com o tráfego aéreo diminuído, via-se a cidade deserta lá embaixo. Poucos carros – estava todo mundo na praia, me disse Elisa Tolomelli, que faz a produção executiva. Talvez por isso, e por haver muitos gringos a bordo, num clima festivo, ao se aproximar do aeroporto o piloto fez um giro sobre o Maracanã, e foi lindo na manhã de ontem, com céu de brigadeiro, muito azul. Pensei de novo comigo – perdi a chance de estar vendo esses jogos em campo. Nunca mais, pelo menos na minha vida, a Copa no Brasil. A Copa que não ia haver – era a palavra de ordem – e está sendo tão gloriosa. Dos jogos, dos gols e dos latinos.