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Luiz Carlos Merten

11 Dezembro 2009 | 11h43

No Velho Oeste ele nasceu/e entre bravos se criou/seu nome lenda se tornou… A musiquinha me veio agora de manhã ao descobrir que Gene Barry morreu, aos 90 anos. Bat Masterson! Este talvez seja um post para sexagenários. Mas eu adorava as séries de westerns, nos primórdios da TV. ‘Rawhide’, “Bat Masterson’, ‘O Homem do Rifle’, ‘Bonanza’, ‘Maverick’… Claro que adorava também ‘Lanceiros de Bengala’ e ‘Papai Sabe Tudo’, as séries de médicos, o Dr. Kildare mais do que Ben Casey, mas os westerns… Sempre fui louco pelo gênero, que a crítica francesa, nos anos 1950, colocou nas nuvens – com o filme noir -, vendo em ambos o território por excelência da ‘autoria’ no cinema de Hollywood. Lembro-me de definições célebres. O western nasceu do encontro de um tempo e um espaço com um meio de expressão. Representava o cinema em seu estado mais puro. John Ford, John Ford, John Ford. E Howard Hawks, Budd Boetticher, Anthony Mann, Raoul Walsh, Delmer Daves. Tantos westerners! ‘Bat Masterson’ foi ao ar nos EUA, pela NBC, entre 1958 e 61. Na vida real, William Bartley Masterson foi um dos ajudantes do lendário US marshall Wyatt Earp. Além da pistola na cintura, usava uma bengala preta de aro dourado, chapéu coco e terno elegantíssimo – não me perguntem se era assim na realidade ou se foi só a imagem celebrizada por Gene Barry, que, afinal de contas, era galã. Na série, ele não era xerife nem delegado, mas defendia a lei com ardor. Almofadinha do Leste, deu-se bem no West selvagem pelo simples fato de que era bom de tiro, mas, como ninguém é de ferro, Bat Masterson não resistia a um rabo de saia, adorava pôquer e uísque. E, entre pistolas e brigas, destilava pensamentos elevados, como este do persa Omar Khayam – ‘Todos vivemos até a hora a nós destinada’. Gene Barry, que criou a lenda, viveu bastante. Durante 58 anos, foi casado com a mesma mulher, debilitando-se quando ela morreu, em 2007. Em 1961, muitos de vocês nem eram nascidos quando ele veio ao Brasil fazer um show, porque também cantava. Desembarcou no Rio, veio a São Paulo. Na época, ‘deu’ na imprensa que presenteou o filho do então presidente João Goulart com uma bengala – uma das três que trouxe na bagagem – e foi recepcionado por um grupo de artistas liderado por Dircinha e Linda Batista (antes que elas protagonizassem, na vida, o horror da ficção de ‘O Que Terá Acontecido a Baby Jane?’, de Robert Aldrich). Gene Barry se chamava Eugene Klass e nasceu em Nova York, há controvérsia se em 1919 ou 21. No primeiro caso, teria realmente 90 anos. No segundo, ‘apenas’ 88. Antes de virar ator, Barry foi modelo, daí a elegância que projetava na telinha. A música tema do seriado ganhou uma versão brasileira (de Carlos Gonzaga). Dwepois das três frases que você leu no início, o refrão, que a gente acentuava bem, era ‘Bát Mástêrsôn/Bát Mástêrsôn’. Velhos tempos dos episódios de meia hora, em preto e branco. Naturalmente que depois aprendi que a lenda do Oeste foi esculpida para legitimar a expansão ‘imperialista’ sobre os territórios dos índios, um velho discurso de esquerda para tentar desmoralizar – ou desvirtuar – o gênero. Comigo nunca colou. Muito me diverti com Bat Masterson. A morte de Gene Barry me desencadeou essa verdadeira sessão nostalgia.

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