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Luiz Carlos Merten

14 Abril 2010 | 09h08

Ainda não havia lido ‘Os Bastidores de Hollywood na Vanity Fair’, com o material da famosa revista organizado por Graydon Carter, lançamento da esditora Agir. Como relatei outro dia, li os capítulos referentes ao making of de dois filmes que me interessaram imediatamente por seu caráter ‘limítrofe’ – a Cleópatra de Mankiewicz, que leva ao colapso o star system, e o ‘graduado’ de Mike Nichols, A Primeira Noite de Um Homem’, que anuncia os novos tempos na chamada ‘meca do cinema’. Tenho lá minhas restrições críticas ao enfoque, principalmente sobre ‘Cleópatra’, mas a reportagem é bem escrita e atraente na sua maledicência, desde que se dê o devido desconto. Não me lembro quem escreveu um comentário dizendo que queria comprar o livro só por causa do capítulo sobre o outro Mankewicz integrado ao volume, o de ‘A Malvada’. Conhecia quase todas aquelas histórias, mas duas ou três coisas foram novidades para mim. Mankiewicz é o cineasta da palavra e toda tragédia, em seu cinema, passa sempre por ela. A forma como ele chegou à voz de Margo Channing, pedindo a Bette Davis que representasse no tom com que ela chegou ao estúdio depois de uma noite de bate-boca com o ex-marido (que logo se casou com a babá de sua filha – o livro é cheio de detalhes desta ordem), é muito legal. Achei divertidas as referências pejorativas de Bette Davis a Marilyn Monroe – ‘Essa vagabundinha pensa que basta sacudir o rabo para representar’ – e a retribuição de MM, que foi se queixar a Joan Collins, quando Joan filmava ‘A Rainha Tirana’ com a grande Bette. MM dizia – ‘Essa mulher (Bette) odeia qualquer criatura do sexo feminino que seja capaz de andar com as próprias pernas.’ E acrescentava que era uma velha ‘má’. Confesso que a avaliação crítica continuou não me interessando muito no capítulo sobre ‘Juventude Transviada’, mas as informações aqui são muito mais ricas (ou, pelo menos, foram para mim). Não tanto a bissexualidade do diretor Nicholas Ray, que conseguiu ser amante da estrela Natalie Wood e do roteirista, mais tarde crítico e escritor, Gavin Lambert. O texto confirma o affair de Tony, filho de Nicholas Ray, com a então mulher dele, Gloria Grahame, e acrescenta que os dois se casaram e tiveram filhos. Achei brutal sa definição do amante, Lambert – ‘Nick muitas vezes se sentia fisicamente atraído por mulheres, mas não gostava delas. Tenho para mim que se ressentia dessa atração.” Psicanálise elementar, mas que explica alguma coisa dos filmes e do comportamento (auto)destrutivo do grande diretor. O melhor capítulo, revelador – assustador? – para mim, foi sobre os bastidores de ‘A Embriaguez do Sucesso’. Sabia muita coisa sobre o cult de Alexander Mackendrick e a vinculação do personagem de Burt Lancaster com o colunista Walter Winchell, que era o grande árbitro da cultura norte-americana nos anos 1950. Mas a história da empresa produtora do ator, a Hecht-Hill-Lancaster, como antro de canalhice e corrupção, me deixou de queixo caído. O Príncipe Salinas sai chamuscado dessa história toda. Ao longo de décadas, Burt Lancaster construiu a imagem de um sujeito ético e, por isso mesmo, seus papeis em ‘A Embriaguez’ e ‘Entre Deus e o Pecado’, de Richard Brooks, que lhe deu o Oscar, eram tão bons. ‘Parecia’ que não tinham nada a ver com ele, e que Lancaster representava (e bem). Pelo relato, aquele era o verdadeiro Lancaster. Não deveria ser. O verdadeiro deveria estar no meio. Estou em choque. Leiam o livro. Desde ‘A Cidade das Redes’, não lia nada tão contundente sobre os bastidores do cinemão.