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Luiz Carlos Merten

04 Abril 2008 | 18h12

Estou há dias para voltar ao livro de entrevista do Cameron Crowe com Billy Wilder, mas como escrevi um texto para o ‘Cultura’ de domingo – e neste dia estará passando ‘Conversas com Billy Wilder’, de Volker Schlondorff, no É Tudo Verdade – não vou me furar e deixo para falar depois. Outro post que está entalado é sobre Basil Dearden. Basil quem? Antônio Gonçalves Filho me falou maravilhas no outro dia de DVDs que comprou na Fnac e agora eu estou em dúvida se ele também comprou ‘Victim’, ou se importou o filme com Dirk Bogarde. No Brasil, ‘Victim’ ficou sendo ‘Meu Passado Me Condena’, o que tinha tudo a ver com a história. No começo dos anos 60, Dirk Bogarde era, talvez, o maior galã do cinema britânico, antes de virar o ator-fetiche de Joseph Losey e Luchino Visconti. Foi um choque quando estreou ‘Victim’, porque ele faz um homossexual vítima de chantagem (e violência). Na época, homossexualismo era crime na Inglaterra, mas o filme fez tal sensação que levou a um debate na sociedade cuja conseqüência foi, no limite, a revogação da lei. Conta o Toninho que o DVD tem, entre os extras, uma entrevista do Dirk Bogarde, explicando como e por que saiu do armário (e assumiu que ele próprio era gay). Basil Dearden é pai do também cineasta James Dearden. Ele representa o que seria o cinema inglês de qualidade, se o free cinema (por volta de 1960) fosse tomado como a nouvelle vague da Inglaterra, insurgindo-se contra a geração anterior. Tenho de admitir que gosto muito de alguns filmes de Basil Dearden. Safira, a Mulher sem Alma é um ótimo policial e mexe em outro vespeiro, ao discutir o racismo dos ingleses. Além do mais, o filme tinha uma atriz poderosa – Yvonne Mitchell. O que era aquela mulher? Não era bonita, com certeza, mas como atriz não existia outra. Dearden fez depois ‘Victim’, que teve a repercussão (estética e social) a que me referi, e logo ‘Khartum’, um épico que na época foi descartado como sub-‘Lawrence da Arábia’, mas que me impressionou muito ao retratar a campanha de um herói inglês, Gordon Pasha, interpretado por Charlton Herston, contra as forças do Mahdi, líder islâmico – Laurence Olivier era o ator – no Sudão do século 19, ou da virada para o 20. A cena em que Laurence Olivier oferece a Heston/Gordon os signos físicos que provam que ele é o Mahdi não me sai até hoje da memória. E Basil Dearden era demolidor em relação ao heroísmo de Gordon (como ao imperialismo britânico em geral). Numa cena, Heston ajoelha-se para rezar e, quando olha para cima – em busca de Deus? -, o que vê é uma garrafa de uísque. Sensacional. Falei das metáforas visuais que me pareceram ótimas em ‘Falsa Loira’, mas Basil Dearden também sabia usar o cenário, e o enquadramento, e a posição do ator, para dizer muitas vezes coisas contrárias ao que parecia o espírito da cena. E isso é o cinema de autor, para mim.

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