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Luiz Carlos Merten

26 Julho 2007 | 13h16

Cheguei hoje no jornal e não parei mais. Nem tive tempo para postar, o que faço agora, para falar sobre uma coisa que me encantou, ontem à noite. Fui ver o Hell’s Kitchen Dance de Mikhail Baryshnikov no Municipal meio que levado, para agradar aos amigos que estavam querendo ver o bailarino russo que fez alguns filmes (nenhum particularmente bom). Fiz até piada – ia ver o vovô, que Baryshnikov é, dançar. Tive um choque. Logo no começo, Baryshnikov ‘contracena’, como no cinema, consigo mesmo. Um telão mostra o jovem Mikhail executando piruetas que o avô, nem com toda a sua técnica, consegue mais fazer. Ele pára no meio do palco, olha para o telão e abre os braços num sinal de desalento. Me veio a imagem de Burt Lancaster, no mesmo gesto, em Violência e Paixão, de Visconti. Me emocionei tanto que chorei. Na segunda coreografia, ele continuou dançando consigo mesmo, e o tema era de Erik Satie. Se fechasse os olhos, mas não queria fechar, para não perder nenhum detalhe do bailarino, acho que estaria num outro mundo – in heaven, talvez. Depois, vieram dois solos de integrantes da escola de dança de Baryshnikov e a apoteose do grupo todo – com ele, inclusive. Não era dança acadêmica, tradicional. Era uma arte gestual, do corpo. Uma arte do movimento. Fiquei chapado, eu e todo o público presente no Municipal. Saí dali e fui jantar com Dib Carneiro Neto e Adriana Del Re. Tomamos vinho (argentino), conversamos, rimos. Como diz Bergman no desfecho de Gritos e Sussurros, a vida vale a pena, nem que seja por um momento. Ontem, tive um desses momentos perfeitos. E ele nasceu da imperfeição de Baryshnikov, que assume que não é mais o que foi. Quer dizer – continua sendo, num outro plano. Obrigado pela lição, Mischa.