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Luiz Carlos Merten

07 Dezembro 2009 | 12h32

Mauro Brider informa que comprou alguns DVDs de oferta na 2001 – ‘Os Assassinos’, um ótimo Siegel, e ‘Barrabás’, do meu adorado Fleischer. Se gosto de ‘Barrabás’? O filme é uma adaptação do romance de Par Lagerqvist, autor sueco vencedor do Nobel, com produção de Dino de Laurentiis. Logo na abertura, o filme mostra a multidão preferindo o ladrão – Barrabás – ao Cristo e, na sequência, em paralelo, Fleischer contrapõe o calvário de um ao que seria a vida de prazeres do outro, mas Barabbas é um personagem singularmente atormentado e trágico. Vocês sabem que gosto de Fleischer, já o disse muitas vezes. Seus grandes filmes são viagens pelas mentes de personagens agoniados – basta lembrar o Capitão Nemo de ’20 Mil Léguas Submarinas’, o Kirk Douglas de ‘Vikings, os Conquistadores’ e o Tony Curtis (Albert DeSalvo) de ‘O Homem Que Odiava as Mulheres’, sobre o estrangulador de Boston. Barrabás passa pela vida fazendo escolhas erradas, marcado pela escolha errada que a própria multidão fez em seu favor. No processo, ele vai perdendo tudo, até sua conversão, que é muito mais um ato de desespero. O sonho hollywoodiano da segunda chance e a dele não é viver, mas morrer – com glória. Faz muito tempo que não revejo ‘Barrabás’, mas existem coisas que não me saem da cabeça quando penso no filme. Fleischer utiliza muito a montagem paralela e a fotografia (de Aldo Tonti) e a música (de Mario Nascimbene) criam momentos que consigo reconstituir integralmente, porque me acompanham, como partes do meu imaginário. Sugiro ao Mauro que veja o filme e depois me diga se não tenho razão de reter principalmente a música, nessas cenas iniciais. Não creio que ‘Barrabás’ seja um grande filme – é, inversamente, um filme grande –, mas, de todos aqueles épicos por volta de 1960 (a produção é de 1962), este me parece o mais ‘literário’. Nenhum outro busca tanto viajar na interioridade de um personagem complexo e, neste sentido, o roteiro de Christopher Fry foi uma ferramenta valiosa para o diretor. Tentei me lembrar do que me disse Anthony Quinn sobre o personagem, quando o entrevistei. Ele me falou sobre escolhas morais e fez uma ponte com o Zampano de ‘La Strada’, de Fellini. Ambos são pecadores que se regeneram, tocados pela graça, e em ambos os casos ela passa pela perda da mulher – seja Gelsomina (Giulietta Masina) ou a cristã Silvana Mangano, que prefere morrer lapidada a trair o Cristo. Basicamente, foi isso, mas não me lembro das palavras exatas. Fleischer tende a ser subestimado porque sua carreira é irregular. Ele foi claramente um homem que aceitou compromissos, fazendo filmes para os estúdios com os quais tinha contrato. Mas a verdade é que os bons filmes são maioria em sua carreira e alguns são muito mais do que simplesmente ‘bons’. Fleischer foi um dos diretores de Hollywood que assimilaram experiências europeias. A maneira de trabalhar o tempo, o espaço – Alain Resnais cabe inteiro nas telas múltiplas de ‘The Boston Strangler’.