Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Barbas enroscadas

Cultura

Luiz Carlos Merten

02 Abril 2010 | 14h01

‘Eyes Wide Shut’, De Olhos Bem Fechados. Não vou falar do último longa de Stanley Kubrick, lançado postumamente, após a morte do grande diretor (e muitos críticos sustentam que Kubrick teria segurado a estreia para ‘perfeccionar’ o que lhes pareciam pequenos defeitos). Chama-se ‘Eyes Wide Open’, De Olhos Bem Abertos, o longa de Haim Tabakman que estreia hoje com o título de ‘Pecado da Carne’. O filme já passou no Mix Brasil. Um açougueiro ortodoxo se envolve com seu aprendiz. O cara é casado, tem filhos, o típico sujeito respeitado (e responsável). O jovem chega para desestabilizar sua vida. É gay. Tabakman trabalha o espaço de forma muito interessante. O balcão do açougue representa, metaforicamente, o que de fato separa a dupla. Mas há uma aproximação, e o primeiro movimento é quando conversam e tiram os respectivos chapéus. Depois, no sótão do açougue, trocam as primeiras carícias. O diretor disse que espera que, passado o estranhamento dos dois homens barbudos que se abraçam, o espectador possa vencer seu preconceito e perceber a humanidade do gesto. Foi interessante falar com ele. Amos Gitai já havia feito ‘Kadosh’, discutindo a sexualidade feminina na comunidade judaica ortodoxa. A cena em que marido e mulher fazem sexo é uma das mais brutais já filmadas. Nada de preliminares nem prazer. O sexo tem função puramente reprodutiva, a cena mais parece de um estupro. Tabakman me contou que os ortodoxos bem radicais, os homens, não vão ao cinema, mas as mulheres, sim, e existem mulheres cineastas ortodoxas que discutem inclusive sua sexualidade por meio dos filmes que fazem. Machista e autoritária como é, essa comunidade não chega a ser homofóbica porque simplesmente ignora a existência do homossexualismo. É como se ele não existisse, daí o tamanho do tabu que o diretor enfrenta. Ele me falou da sua filmagem ‘guerrilha’. Mesmo elogiando, minimizou a coragem dos atores – disse, o que pode ser discutido, que o sonho de todo bom ator é se testar fazendo um louco ou um gay. Mas, de tudo, o mais forte me pareceu o seguinte – ele não quis fazer um filme para ser bandeira do movimento gay. O que lhe interessou foi o estudo de personagens, a dimensão humana das figuras e, por isso, ele espera, sinceramente, que ‘Pecado da Carne’ ultrapasse os limites do gueto. Sinceramente, gosto do filme, que vi em Cannes, e não gosto do título. ‘Carne’ pega carona no açougue e ‘Pecado’ possui uma conotação que Tabakman não encampa. Gosto bem mais do original, ‘Eyes Wide Open’. Sei que não é filme para todos os gostos. Nossos amigos brucutus já devem estar reagindo a essa sugestão de barbas enroscadas. Vão lá, não vai doer.