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Cultura » Barbara Hershey em ‘Cisne Negro’

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Luiz Carlos Merten

04 Fevereiro 2011 | 13h02

Inácio Araújo caiu matando sobre ‘Cisne Negro’ na ‘concorrência’. Sossega, Valente. Não li o texto do Inácio, mas imagino que, se ele deplorou os fricotes visuais e viu falta de densidade, ou profundidade, no filme que estreia hoje, Inácio ratifica o que eu penso dos outros filmes de Darren Aronofsky. Detesto ‘A Fonte da Vida’, não engulo ‘O Lutador’ de jeito nenhum. Inácio é macaco velho (como eu). Imagino que terá escrito um texto bem fundamentado, consistente, e não um punhado de provocações. Gostei/não gostei são diferentes faces da mesma moeda e, às vezes, os argumentos de uma das partes terminam até iluminando, e enriquecendo, os da outra. Só quero registrar, aqui, uma coisa que coloquei no meu texto da capa de hoje do ‘Caderno 2’, a entrevista com Vincent Cassel. A crítica ao filme quem faz é Luiz Zanin Oricchio, e ele também gostou – desta vez estamos de acordo. Achjo que algo se passa logo na abertura de ‘Cisne Negro’. Aquela câmera solta, o clima onírico, a antecipação de um conflito interior radical. Tenho a impressão de que a adesão, ou não, a ‘Cisne Negro’ passa pelo começo. Eu vi aquilo e fiquei chapado. Não consegui mais desgrudar o olho da tela, vi o filme com o coração na mão. E a Natalie Portman é 20, não é 10. É interessante, mas só agora me dou conta de que já falei sobre o filme aqui no blog, mas nunca fiz nenhuma referência a Barbara Hershey, que faz a mãe da protagonista. Aronofsky é atraído por essas figuras maternas – a Elle Burstyn de ‘Réquiem para Um Sonho’, do qual não gosto. Barbara faz a mãe de Natalie. No passado, foi bailarina promissora, mas desistiu da dança ao engravidar e agora projeta na filha sua expectativa fracassada. Barbara Hershey nunca foi uma ‘estrela’, mas ganhou, e acho que nisso é única, duas vezes e de forma consecutiva, o prêmio de melhor atriz em Cannes – em 1987, por ‘Shy People, Gente Diferente,. de Andrei Konchalovski, e no ano seguinte por ‘A World Apart’, de Chris Menges. Vinte anos antes, ela havia feito ‘O Caminho da Felicidade’, The Pursuit of Happiness, de Robert Mulligan, formando dupla com Michael Sarrazin no filme que procurava retratar a juventude contestadora dos EUA. Michael Sarrazin! Na segunda metade dos anos 1960, ele fez todos aqueles papéis marcantes (em ‘A Noite dos Condenados’, They Shoot Horses Don’t They?, de Sydney Pollack, principalmente), depois se apagou. Barbara obteve mais reconhecimento na Europa. Era uma bela atriz, em todos os sentidos. Achei-a um pouco prejudicada em ‘Cisne Negro’ por causa do botox ou da plástica, sei lá. Está ‘esticada’, não tanto quanto Faye Dunaway, mas para uma atriz a expressividade facial é tudo. Nicole Kidman recuperou a dela. Julie Christie nunca a perdeu. Sobre Jane Fonda, prefiro não falar. Jane Fonda decidiu que vai permanecer sua ‘filha’, custe o que custar. Vejo as fotos recentes dela e me lembro da personagem de Liz Taylor em ‘Meu Corpo em Suas Mãos’, ao lado de… Henry Fonda. Se há um filme de horror é aquele. Liz quer ficar jovem para reconquistar o marido. Como Frankenstein, ela renasce jovem e bela (como Liz Taylor!), mas perde o marido e a plástica a obriga a viver reclusa porque não pode pegar sol, tem de comer sei lá o quê, medicamentos toda hora, era uma coisa de doer. Por que essa gente tem a obsessão de parecer jovem, mesmo sabendo que não são?