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Cultura » Baixa, Pereio!

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Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2006 | 14h24

Veja os filmes miúras da Mostra, os que não vão entrar em cartaz em seguida ou os que não vão entrar nunca no circuito exibidor brasileiro. A gente diz, mas não faz. Todo mundo quer ser sempre o primeiro a ver e opinar sobre o Manoel de Oliveira, o Scorsese, o Altman, o fulano de tal. Digo isso porque vou chover no molhado. Às oito da noite, no Cine Bombril, veja hoje O Cheiro do Ralo, que Heitor Dhalia fez baseado no livro do Lourenço Mutareli – e o autor é ator ; faz um segurança, ele que não tem physique du rôle para o papel, o que pode ser considerado uma das pequenas grandes ironias do Heitor, como diretor. Outra foi o que o Mutareli contou no debate sobre o filme, após sua exibição na Première Brasil, no Rio, que tive o prazer de mediar. Heitor deu uma dura no Mutareli (o autor!) porque ele queria improvisar, não seguindo o diálogo que o próprio Heitor e o Marçal Aquino desenvolveram com base no livro. Confesso que fiquei meio desorientado logo que vi O Cheiro do Ralo pela primeira vez (Flávia Guerra diz que é O Cheiro do Rabo). Não demorou dois minutos e eu comecei a ser seduzido, no retrospecto, pelo que o filme tem de ousado e transgressor. Virei o maior defensor, se bem que o filme se defende sozinho, não precisa de mim nem de quem quer que seja. O Cheiro conta a história de um escroto, Lourenço, interpretado pelo Selton Mello. Ele tem uma loja que compra objetos usados. Usa o dinheiro para humilhar todo tipo de derrotado que entra lá dentro. Heitor fez um filme porreta. Não tinha dinheiro, dependeu da entrega de toda a equipe. Mas o Heitor reconhece – teve uma entrega que foi essencial. Um filme com um personagem tão pouco simpático necessita de um ator especial para ganhar o público. Ele teve este ator, o Selton, que praticamente o intimou a deixar que interpretasse o Lourenço. No Festival do Rio, escrevi que o Selton incorporou uma persona como a do Pereio. Quando o encontrei, um ou dois dias depois de postar no blog, ele me contou que eu não sabia como havia acertado. Todo dia, no set, antes da filmagem, o Selton invocava – ‘Baixa, Pereio’, para que o espírito do ator mítico o possuísse. Selton é fogo, Heitor é fogo. Veja O Cheiro do Ralo e vote. Pode valer R$ 400 mil da Petrobrás, que vão ajudar bastante no lançamento.