Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Bad movies

Cultura

Luiz Carlos Merten

29 Junho 2007 | 13h06

Comecei o post anterior pensando numa introdução pequena para o que vem agora, mas a conversa foi esticando, esticando… Comprei uma vez nos EUA um livro que não saiu aqui – Bad Movies We Love, que tem uma apresentação muito divertida de Sharon Stone. Filmes ruins que a gente gosta. Eu gosto de vários, assim como a recíroca é verdadeira. Existem filmes que eu reconheço como importantes, mas dos quais não posso dizer que gosto –Cabaret, por exemplo? Estava redigindo os filmes na TV de amanhã. A Globo exibe, no Supercine, às 23 horas, Sob o Sol da Toscana. Me lembro de uma coisa que Pauline Kael, a crítica mais famosa dos EUA, escreveu certa vez – se alguém quiser analisar determinado filme a sério, deveria ter sua cabeça examinada. É mais ou menos o caso deste filme de Audrey Wells, com Diane Lane. Você deve se lembrar. Diane faz uma divorciada em crise de auto-estima. As amigas, entre elas Sandra Oh, que eu adoro – e vai filmar Blindness com Fernando Meirelles, o que significa que a teremos aqui, em setembro, com Julianne Moore e Mark Ruffalo –, lhe pagam uma viagem para a Itália. Diane vai para a Toscana e chega nesta pequena cidade. Encanta-se. Compra uma casa caindo aos pedaços, que começa a reformar. A casa é ela, claro. Ela redescobre o amor –a vida vem, como me diz sempre uma amiga, Roseli Tardelli. Quando vi Sob o Sol da Toscana num dos cinemas do Adhemar Oliveira – o Arteplex –, lembrei-me de Candelabro Italiano, de Delmer Daves, que era aquilo que se chamava de ‘travelogue’, nos anos 60. Um filme turístico, com muitas paisagens de cartão potal. Suzanne Pleshette fazia a professora expulsa de uma escola puritana da Nova Inglaterra (onde mais?) porque a diretora descobria acho que O Amante de Lady Chatterley entre os pertences dela. Suzanne ia para a Itália, onde, como dizia, as pessoas sabiam amar. Encontrava Rossano Brazzi, mas o romance para valer era com o americano Troy Donahue, galã dos filmes do diretor, com quem Suzanne se casou (e os dois fizeram Um Clarim ao Longe, de Raoul Walsh). A diretora Audrey Wells deve ter visto Candelabro Italiano. Fez a nova versão, para os anos 2000, daquele filme. Não é Bergman, não é Kieslowski na abordagem dos sentimentos e da reconstrução interior. É uma coisa diluída, descartável, mas é tão bonito. A Toscana, cenário de filmes dos irmãos Taviani e de Bertolucci (Beleza Roubada), é um dos paraísos na Terra. Diane Lane é um furacao que, às vezes, assola Hollywood. Diane é hoje o que Kathleen Turner era no tempo de Corpos Ardentes. E o filme tem Mario Monicelli, um dos reis da comédia italiana. Monicelli é um diretor ácido. Fez Parente É Serpente – nem Nelson Rodrigues mostrou a família daquele jeito. Entrevistei-o, certa vez, em Veneza. Não sei se posso dizer que o entrevistei. Monicelli detesta críticos. Ficou emburrado na maior parte do tempo, dizendo que fazia filmes para o público rir e não tinha o menor interesse em ficar discutindo estética nem política. Tive de dizer para ele que também era público e já havia pagado muito ingresso para ver seus filmes. Monicelli faz um pequeno papel em Sob o Sol da Toscana. Aparece bem no fim. Sua participação encerra o sentido do filme. Se o Monicelli, irascível como é, teve generosidade para fazer aquele papel, por que levar as coisas excessivamente a sério? Sim, o cinema é uma coisa séria. É arte, é linguagem, é política, é um instrumento do humanismo para que a gente entenda o mundo em que vive (e para que nos entendamos a nós mesmos). Mas por que não se entregar ao prazer de ver Diane Lane na Toscana? Sábio título, sábio livro. Bad movies we love. Garanto que cada um de vocês tem sua lista dos filmes ruins de que gosta.

Encontrou algum erro? Entre em contato