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Luiz Carlos Merten

05 Julho 2008 | 17h31

PAULÍNEA – Tentei acrescentar mais um post antes de sair de São Paulo, mas a internet estava fora do ar e me danei. Vou reproduzir pelo menos o começo. Dizia mais ou menos assim. Ó dúvida cruel. Não, não se trata da questão existencial hamletiana, mas de algo muito mais prosaico. A vida cabe ou não cabe num Chevrolet? E é mesmo Chevrolet? No caminho, confirmei que o título correto do filme de Reynaldo Pinheiro é ‘Nossa Vida não Cabe num Opala’ e Chevrolet era a marca na peça, que o diretor não pôde usar no cinema porque a empresa não autorizou. Mantenho essa abertura por auto-ironia. Já que não gostei do ‘Opala’, meus amigos Reynaldo e Miriam Chnaiderman sempre poderão se valer disso para dizer que estou gagá – mas eu sei, que gente de (e do) bem, não vão fazer isso. Feita essa longa ressalva inicial, o post perdido continuava de forma a sustentar o título que vocês leram acima. O HSBC está apresentando desde ontem um ciclo de filmes com este título. Imagino que a programação deva mudar, mas o primeiro filme é ‘Verão Assassino’, de Jean Becker, e a bad girl é Isabelle Adjani. Jean, filho de Jacques Becker, grande diretor francês idolatrado por Truffaut & Cia., fez mais recentemente ‘Conversas com Meu Jardineiro’, que estreou no ano passado. Quando o entrevistei, por telefone, conversamos não só sobre o filme com Daniel Auteuil e Jean-Pierre Darroussin, mas também sobre seu pai – Jacques já estava tão debilitado que Jean teve de filmar cenas do clássico ‘A Um Passo da Liberdade’ (Le Trou); seu pai morreria em seguida – e também sobre ‘L’ Été Meurtrier’, nos anos 80. O filme proporciona à jovem Adjani outro papel de mulher obsessiva, logo após sua instantânea consagração em ‘A História de Adèle H’, de Truffaut. Adjani tem temperamento, mais até do que physique du rôle, para esse tipo de papel, que repetiu em ‘Camille Claudel’, de Bruno Nuytten, e na estupenda ‘Rainha Margot’, de Patrice Chéreau. O filme é um policial, ou um ‘polar’, como dizem os franceses. Melhor ainda – um ‘thrillér’ (e eu adoro quando eles acentuam, oralmente, o E final, aberto). Narra uma história de vingança permeada de erotismo. Isabelle faz uma louquinha de pedra, que incendeia os homens neste verão assassino, não me lembro mais se numa cidade interiorana ou numa praia (acho que é província). Vou rever ‘Verão Assassino’ ao regressar a São Paulo. Posso errar em alguns detalhes, mas lembro-me perfeitamente de outros, cenas inteiras que ajudaram a construir a reputação de Adjani como estrela. A propósito, vou contar aqui a história que incluí no texto sobre a grande exposição dedicada a Camille Claudel, que visitei em Paris, logo após o Festival de Cannes. Adjani fez a personagem magistralmente no cinema. A própria Camille, amante de Auguste Rodin, era obcecada até o limite – por sua arte, a escultura, e pelo homem que amava, Rodin (mas ele não podia suportar que ela fosse melhor do que ele). É a tese do filme, que eu achava que fosse uma fantasia de Adjani e de seu ex-marido, o fotógrafo-transformado-em-diretor, Nuytten, mas depois de ver a tal exposição, em maio, me convenci de que é verdade verdadeira. A história, que vocês devem conhecer, é a seguinte. Adjani era a top star francesa quando revelou que era filha de pai argelino e mãe alemã (ou é o contrário?). A maioria silenciosa francesa, que a catapultara para o sucesso, imediatamenter iniciou uma campanha de descrédito da sua agora ex-musa. Ah, o horror do racismo. Surgiu o boato de que Adjani estava morrendo de aids. Ela foi à TV para provar que estava bem, o que gerou um escândalo, aliás dois. A direita francesa passou a odiar Adjani e a esquerda, também, porque ela, convidada por não me lembro que revista, entrevistara o presidente Jacques Chirac e a entrevista foi considerada pró-ele. Ou seja, além de ‘pied-noir’, como os colonialistas franceses se referiam aos argelinos, Adjani seria chiraquista. Salvou-a justamente a criação como Camille Claudel. O filme reabilitou a escultora e a própria atriz, indicada para o Oscar. É uma pena que ela tenha se desinteressado do cinema, mais recentemente. Só posso entender assim, porque nos últimos tempos temos visto pouquíssima coisa com Adjani (e quase sempre abaixo de suas possibilidades, após a ‘reine Margot’). Adjani é espetacular em ‘Verão Assassino’. Poderia fazer suas as palavras de Bette Davis. ‘Quando sou boa, eu sou ótima, mas quando sou má sou melhor ainda.’ Vejam, ou revejam o filme, e a gente conversa.

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