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Luiz Carlos Merten

20 Janeiro 2007 | 13h22

SANTIAGO – Meus últimos dois dias foram bastante intensos aqui em Santiago, o que nao me deixou muito tempo para postar. Ontem deve ter estreado aí em Sao Paulo Babel, que acaba de receber o Globo de Ouro de melhor filme. Tenho uma relacao de ambivalencia com o cinema de Alejandro González-Iñárritu. Gosto de Amores Brutos, gosto bem menos de 21 Gramas e a rigor devo dizer que nao gosto de Babel, por mais que me imnpressionem fragmentos do que poderia ser um filme notável. Desde Cannes, no ano passado, tenho sido um crítico ferrenho de Iñárritu, o que disse para ele no Rio, em setembro, quando o entrevistei durante o festival. Foi engracado. Meu fotógrafo chegou atrasado, quando eu já tinha feito minhas objecoes a Babel. Iñárritu me ouviu entediado, me disse que acreditava nas chances dele no Globo de Ouro (e Babel venceu). Foi até o fim com a entrevista, mas quando o fotógrafo chegou recusou-se a conceder um minuto a mais, o que fez com a matèria saísse com foto do arquivo do Estado. Babel encerra, aparentemente, a parceria de Iñárritu com Guillermo Arriaga, seu roteirista nestes tres filmes que compoem, segundo ele próprio, uma trilogia sobre as relacoes entre pais e filhos. Iñárritu andou se estressando porque Arriaga parece ter reivindicado a co-autoria de Babel. O cara é um grande roteirista e o melhor de todos os filmes que ele escreveu, para mim, é Tres Enterros, com direcao de Tommy Lee Jones. O problema de Babel é que deixa muito claro o artifício dramático pelo qual Arriaga e Íñárritu construíuram sua parceria. Há sempre um incidente inicial que deflagra várias histórias, com muitos personagens. Aqui, como o objetivo é mais amplo – refletir o mundo globalizado -, as tramas envolvem filmagens em tes contrinentes e nem sei mais quantas línguas e países. Um tiro acidental desferido por dois garotos no deserto atinge uma turista americana que passa num onibus lá longe e o caso repercute nos EUA e no Japao, onde está a origem do rifle, criando um caso internacional. Isoladamente, as partes têm mais forca que o conjunto e eu confesso que nao gosto muito, ou gosto bem menos, do episódio japonês. Foi o que irritou Iñárritu. Sem o episódio japonês, sem a garota com dificuldade de comunicacao e que busca, desesperadamente, um contato, ele me disse que nao teria o filme. Retruquei que poderia ter feito diferente. Ah, é – ele ironizou. Como? Respondi que se apresentasse uma proposta o filme nao seria dele. Aí nao houve mais diálogo e ficamos falando de amabilidades. Como é morar em Los Angeles, ter família no México; como é criar os filhos em outra cultura, essas coisas. Meu problema com o Iñárritu é de conceito. No cinema dele, é sempre a tragédia que nos torna solidários. Nao creio que seja verdade. Nao é preciso um tiro no deserto, um acidente de carro (em Amores Brutos), um atentado em Nova York ou um tsunami na Ásia para nos unir mais. Nao sei, talvez seja romântico e queira acreditar em outras formas de uniao e solidariedade, um resquício de Maio de 68. Babel, de qualquer maneira, é o tipo de filme que é preciso ver e discutir. E tem partes muito fortes. Na quarta ou quinta, nem sei mais, vamos saber se, além do Globo de Ouro, estará no Oscar, e com quantas indicacoes. Iñárritu foi blasé comigo. Disse que nao acreditava nas chances do filme dele no Oscar. É bem provável que tenha mudado de idéia. Nesta história de um gesto aqui repercutir no outro lado do mundo, a pergunta que fica no ar é – Fernando Meirelles tem um projeto que consiste em atualizar o clássico Intolerância, de Griffith, para o século 21, contando várias histórias entrelacadas, em diversos países, para também refletir o mundo global. Babel inviabiliza o filme dele? Gostaria de acreditar que nao, mas, enfim…