Luiz Carlos Merten

19 Março 2016 | 10h33

E, para concluir a semana – esse post vai ser uma sequência do anterior -, morreu ontem, no Rio, José Carlos Avellar. Desde o fim de janeiro, em Tiradentes, quando me informaram de seu estado de saúde – estava fazendo quimioterapia, por causa de um linfoma -, havia tentado me comunicar com meu amigo. Quero crer que o fôssemos. Apesar do pouco contato – em Berlim e Cannes, basicamente, algumas conversas no Rio e em São Paulo -, eu gostava pra cacete do Avellar. Pedi a várias pessoas seu telefone. Nenhuma tinha, na hora. Prometiam me enviar. Se cumpriram a promessa, os e-mails perderam-se no buraco negro da minha caixa. Em Berlim, os relatos foram preocupantes. Avellar não estava nada bem. E ontem, havia saído da redação para ir à cabine de A Bruta Flor do Querer. Ao voltar, meu editor, Ubiratan Brasil, me informou da morte do Avellar, num hospital do Rio, aos 79 anos. O velório será amanhã, domingo, às 11 h, com cremação à tarde. Existem figuras luminares do pensamento crítico no Brasil. Tem gente que venera Paulo Emilio Salles Gomes, Jean-Claude Bernardet. Em Porto Alegre, Paulo Fontoura Gastal, o Calvero, foi muito importante, mas nunca deixou o legado de um livro com a súmula do seu pensamento teórico. Eu até confesso que posso admirar, pontualmente, um, outro – mais que qualquer livro, os três artigos que Bernardet escreveu sobre O Bandido Giuliano, de Francesco Rosi, na antiga Última Hora, no começo dos anos 1960, foram decisivos em minha juventude -, mas se tivesse de rezar na cartilha de alguém seria na do Avellar, e antes dele, Walter da Silveira. Nada mais distante de mim, um gaúcho, do que o espírito baiano, mas quando li As Fronteiras do Cinema, tive um choque. Orlando Margarido me contou que foi no outro dia a um seminário sobre Glauber Rocha e Eisenstein e eu ia perguntar se a influência de Walter da Silveira, e sua paixão pelo criador de Potemkin, havia sido abordada, porque estou convencido, sem nenhuma prova disso, de que Walter, em Salvador, deve ter sido fundamental para essa ponte de Glauber. Tive a mesma revelação ao ler, há uns 40 anos, Imagem e Som, Imagem e Ação, Imaginação, do Avellar, publicado pela Paz e Terra. Mais até que o pensamento crítico acurado, encantou-me o método. A forma como Avellar partia de cenas, que dissecava, e daí buscava a apreensão do sentido geral do filme, e das intenções do autor. Do particular para o geral. Muitas vezes tenho repetido esse movimento em meus textos, quero crer que com algum resultado. Avellar amava o cinema autoral e político, mas tinha um olhar muito interessante sobre o mercado. Chegou a ser gestor público, dirigindo, nos anos 1990, a Riofilme. Amávamos o cinema brasileiro e latino, mas ele, muito mais que eu, era devoto de São Glauber. Avellar via como excentricidade minhas escapadas pelo cinemão. Consternava-se porque gostei mais de Bicho de Sete Cabeças do que de Lavoura Arcaica, mas achou interessante minha leitura que situa ambas as obras na bifurcação do filme da minha vida – Rocco e Seus Irmãos, e eu volto sempre a Visconti. Citei o Imagem e Ação, mas poderia ter citado outros livros do Avellar. O Cinema Dilacerado, A Ponte Clandestina, seu Glauber Rocha em edição espanhola, que ele me deu com dedicatória e uma provocação, “para ver se eu aprendia”. Não tive esse último encontro com ele – nossa última conversa séria foi em Berlim, no ano passado, antecipando que o júri não ia premiar O Botão de Pérola, de Patricio Guzmán, que Avellar, como eu, amou -, mas tenho os livros. Ao ler, poderei, quem sabe, transformar o texto, o verbo, em áudio e escutar sua voz falando comigo. Nunca vi, mesmo no mais ardoroso debate, o Avellar gritar, e não estou idealizando sua figura, como se faz em geral com os mortos. Não me lembro a última vez que o encontrei, mas Avellar havia integrado um júri de roteiros no México. Me traçou um quadro muito rico de novas tendências e falou bem de um projeto de Arturo Ripstein, sabendo quanto gosto do grande diretor. Acho que vou estabelecer, no meu imaginário, que a última vez que o vi foi naquele aeroporto, no ano passado. Avellar estava indo com a mulher para a Espanha. Iam descansar, ver filmes. Boa viagem, amigo. Companheiro.