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‘Ausência na Primavera’

Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2010 | 23h25

Sempre que abro o blog para acrescentar um post encontro uma mensagem. Sei lá – 20 mil comntários, 2 mil e tantos que não foram validados. Mas eu sinceramente não sei onde estão estes 2 mil e como fazer para validá-los. Os comentários me entram como e-mails e, uma vez o autor autorizado uma vez, ele passa a entrar sempre, automaticamente. Estes comentários, portanto, são de pessoas que nunca foram autorizadas. A toda hora minha caixa fica lotada e eu tenho de limpar. Aonde foram parar os comentários que talvez tenha deletado inadvertidamente, em que buraco negro? Afasto-me do que seria o assunto do post. Ao citar a cena da banca em ‘Como Esquecer’, num post anterior, não pensava em fazer a ponte para falar de ‘Tropa 2’. Ia falar de Agatha Christie. Já disse que leio muito a Dama do Mistério. Georges Simenon e ela. Quando não recebo os lançamentos de bolso da L&PM, compro os livros nas bancas. Leio e releio, trileio. Nunca havia lido ‘Ausência na Primavera’. Na contracapa, há uma citação da própria Agatha Christie – ‘O livro que eu sempre quis escrever…’ Já li e reli (o volume). Li umas quatro ou cinco vezes o epílogo. É uma obra-prima. Nâo consigo parar de pensar no belíssimo filme que teria dado – mas teria de ser um David Lean ou, melhor ainda, um James Ivory, não que Ivory seja melhor que Lean. Uma questão de interesse (e temperamento). Ivory fez aquele filme meio devagar sobre a crise de um casamento, ‘Mr. e Mrs. Bridges – Cenas de Uma Família’, devagar apesar do elenco (Paul Newman e Joanne Woodward). ‘Ausência de Primavera’ poderia ser melhor. O livro não é uma narrativa de mistério. Nada de Hércules Poirot nem de Miss Marple nem de Tommy e Tuppence. O livro é sobre uma dona de casa inglesa que va ivisitar a filha em Bagdá, onde ela teve um problema. A protagonista, Joan Scudamore, administrou a vida familiar passando feito um rolo compressor sobre os desejos do marido e dos três filhos. Todo mundo é infeliz, mas ela não se dá conta. Resolvido o problema em Bagdá – e ela, de novo, em momento algum considera as reais necessidades da filha -, Joan pega o trem para voltar para casa, mas há um acidente e ela fica presa numa estação no deserto. O deserto exigiria David Lean. Isolada, sem livros para ler, nada para fazer e muito tempo ocioso, Joan ‘pensa’. Reavalia sua vida e descobre coisas que nunca pensara antes – sobre o marido, os flhos e o casamento. Em crise, Joan só pensa em voltar para casa e pedir perdão ao marido e aos filhos. Mas, quando volta, ela não vai imediatamente para casa. Passa a noite num hotel e convida a filha que permaneceu na Inglaterra, em Londres, para jantar. A garota é fria, sem hostilidade. Gela o propósito de Joan de se desculpar. Com o marido, é a mesma coisa. O epílogo é narrado do ângulo dele, que reflete sobre a mulhe – uma boa mulher, afinal de contas, mas incapaz de dar e receber amor. Ele próprio não teve coragem de lutar pelo amor que (quase) lhe foi ofertado. A frase final é coisa de gênio. Joan, a mulher, diz uma bobagem qualquer do tipo ‘Nunca estarei sozinha. Tenho você, Rodney’ (é o marido). Ele representa o papel do companheiro solidário, mas pensa – ‘Você está e sempre estará só, mas Deus permita que nunca saiba disso.’ Ela soube, mas se recusou a admitir. Sua crise de consciência foi uma miragem no deserto  sob o efeito do sol, como aqueles tiros que Mersault disparou em ‘O Estrangeiro’, de Albert Camus. A gente sempre pensa em Agatha Christie como uma autora muito bem sucedida, mas numa seara particular. Esse livro é outra coisa, amplia seu registro autoral de um jeito como nunca havia imaginado. E este, segundo Agatha, era o livro que ela queria escrever. Agatha Christie não tem nada a ver com Cassandra Rios, mas pegando o motivo da discussão em ‘Como Esquecer’, é como se Cassandra assimilasse o fluxo de consciência de Virginia Woolf, não tanto no jeito de escrever, mas de pensar. No limite, o que me fascina em Simenon, como em Agatha Christie – talvez mais nele -, é como, a despeito da simplicidade (muitas vezes quase esquemática), os livros quase sempre terminam atingindo grande densidade emocional. Se isso não é genialidade, não sei o que é.