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Luiz Carlos Merten

12 Julho 2009 | 12h45

Se conseguir sobreviver a essa tosse que está me matando, talvez consiga chegar aos 80 anos de Nelson Pereira dos Santos, que deu uma bela aula magna ontem, no Memorial da América Latina, como homenageado de honra do 4º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Nelson já me dera uma grande entrevista, que virou matéria de página inteira no ‘Caderno 2’ de ontem. À tarde, fui vê-lo (e ouvi-lo). Compareceram alguns caciques do cinema paulista, mas o público era predominantemente jovem. Nelson é um grande contador de histórias. Lembrou a origem do cinema brasileiero na iniciativa privada. Seu primeiro filme, ‘Rio 40 Graus’, ele o fez com recursos coletados na própria família – como Claude Chabrol, que usou uma herança da ex-mulher para fazer ‘Nas Garras do Vício’ (Le Beau Serge). Nelson lembrou os tempos em que Luiz Carlos Barreto e ele assinavam pqapagaios no Banco Nacional, usando crédito pessoal para fazer ‘Vidas Secas’, que terá sessão hoje à noite no festival. Nelson mencionou publicamente sua dívida com Ricardo Ramos, filho de Graciliano. Em 1961, ele ia fazer o filme na Bahia, mas choveu e Nelson improvisou ‘Mandacaru Vermelho’ no sertão florido. Hoje ele agradece pelo que há quase 40 anos lhe pareceu uma tragédia. ‘Se tivesse feito o filme naquela época, teria feito tudo errado.’ Ricardo lhe forneceu chaves importantes para compreender a obra de seu pai. Assim como negou, na entrevista ao Estado, que tenha feito ‘Vidas Secas’ sem roteiro, com o livro na mão, Nelson desmentiu outra falácia – a de que teria recolhido ‘Barravento’ do lixo, salvando o primeiro longa de Glauber Rocha na montagem. ‘Fui o motorista de Glauber na moviola’, ele diz. ‘Glauber sabia o que queria.’ Foi uma bela tarde, apesar do frio e da chuva. Encontrei gente querida, como Malu Mader, que está dando um tempo na interpretação para escrever o roteiro de seu sonhado longa. Ela vai fazer um clipe dos Titãs. Encontrei Aloysio Raulino e cobrei dele mais uma vez que já me prometeu uma cópia de ‘Noites Paraguayas’, seu longa de 1982, que nunca vi. Aloysio me falou que o filme precisa de uma boa telecinagem. Incentivei-o a restaurar, não apenas esse filme, mas sua obra de fotógrafo e diretor. Não digo isso para parecer bacana, mas porque me parece importante. Existe uma indústria cultural que favorece determinadores autores, enquanto outros correm o risco de desaparecer à míngua. Olhem a luta para restaurar a obra de Andrea Tonacci – e se o ‘Bang Bang’ tivesse se perdido? Ainda estava com a conversa com o Raolyno na cabeça – depois de assistir, à noite,à pré-estreia de ‘Quanto Custa o Amor?’, do qual, sorry, não gostei, apesar do trabalho interessante que Roberto Moreira costuma fazer com seus atores -, quando voltei para casa e encontrei um pacote enviado por Murilo Salles. Murilo conseguiu, e com grande esforço, colocando dinheiro pessoal e uma pequena verba da RioFilme, restaurar ‘Nunca Fomos tão Felizes’, ‘Faca de Dois Gumes’ e ‘Como Nascem os Anjos’, além de fazer uma limpeza da cópia digital de ‘Nome Próprio’. Os quatro filmes estão zero bala em DVD, mas nenhuma distribuidora quis abraçar o esforço de recolocá-los no mercado. Tempos difíceis, de crise, disseram. Sempre gostei muito de ‘Nunca Fomos’ e os movimentos de câmera dentro daquele apartamento vazio sempre tiveram, para mim, uma dimensão à Losey – a câmera de Douglas Slocombe em ‘O Homem Que Veio de Longe’. Acho ‘Faca’ um policial sólido e ‘Como Nascem os Anjos’ é o pré-‘Invasor’ que, com todo respeito que possa ter por Beto Brant, me encanta mais do que o filme com o Paulo Milos (num daqueles personagens que me esforço, mas não consigo engolir, como o pastor/assassino de ‘Contra Todos’, do Roberto Moreira). Dos filmes do Murilo, o que menos me agradara, ‘Nome Próprio’, terminei vendo com outros olhos em Gramado, quando o filme ganhou. Vai ser um prazer fazer uma matéria sobre o reatauro dos filmes do Murilo Salles no ‘Caderno 2’. Espero fazer outra sobre o restauro da obra do Raolyno, quem sabe?

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