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Luiz Carlos Merten

08 Janeiro 2007 | 12h20

MONTEVIDEU – Antes de falar de Diamante de Sangue, no proximo post, quero repassar algo que li nos comentarios outro dia, acho que do Fabio. Falei de nao sei que filme que deve ter irritado o cara, mas ele vive irritado comigo (acho que frequenta o blog de raiva), e disse que eu devia retirar o Danca com Lobos na locadora e ver com audio em japones. Isso me lembrou uma vez que integrei um grupo que foi a Toquio, convidado pela Fundacao Japao. Ana Carolina, Walter Hugo Khouri, Carlos Reichenbach, Rubens Ewald Filho, Amir Labaki, Ismail Xavier e eu (tinha mais gente, mas sorry, nao me lembro mais quem – um cara que entendia muito de cinema japones, mas do qual nao me lembro o nome). Houve uma recepcao durante o Festival de Toquio e Ismail fez uma pequena apresentacao sobre o cinema brasileiro, em ingles. Lembro que ele estava nervoso e soh compreendi a extensao do seu nervosismo no ano passado, em Tessalonica, na Grecia, quando integrei uma mesa para debater o cinema brasileiro e tambem tive de falar em ingles, improvisando, ainda por cima. Mas a estadia no Japao foi maravilhosa. Visitamos Kioto, a antiga capital imperial. Fomos naquele celebre jardim zen, que tem 12 ou 13 pedras, mas de qualquer angulo que voce olhe vai enxergar sempre uma a menos, representando a dificuldade de se chegar á verdade do conhecimento. Naquela mesma noite da fala do Ismail, encontrei-me, quer dizer, o nosso grupo se encontrou com Eizo Sugawa, a quem admirava de um filme que me marcou – Arma Fadídica, com meu ator japones favorito, Tatsuya Nakadai, que era o ator-fetiche do maior diretor do Japao, Masaki Kobayashi, e também interpretou grandes filmes do Kurosawa. Carlao Reichenbach fez ali o convite que trouxe o Sugawa a Sao Paulo, para a Mostra, pouco antes de ele morrer (e agora me deu um branco; acho que Leon Cakoff tambem estava no grupo). Outro que encontramos naquela noite foi o Nagisa Oshima, que vestia um kimono cheio de detalhes dourados (e que o Khouri achou muito afrescalhado; riamos muito daquelas bobagens). O que tudo isso tem a ver com o comentario do Fabio? Chego lah. Um dia, saimos, Rubens Ewald e eu, para caminhar pela cidade e resolvemos entrar num cinema qualquer. Nao sabiamos nada, nem titulo nem coisa nenhuma, apenas, pelas fotos, que o filme devia ser policial, ou de gangsteres. Entramos e foi uma doideira, Tentavamos imaginar os dialogos, entender a trama que era complicada. No final, gostei tanto (era uma coisa violenta, meio Tarantino, contemporanea de Pulp Fiction – estavamos em Toquio para o centenario do cinema), que voltei ao Brasil e fiz tanta propaganda do filme que o Andre Sturm, da Pandora, foi atras dos direitos, comprou e lancou no Brasil. Fui ver com legendas e o sentido nao era tao diferente daquilo que havia entendido, mas aih gostei menos. O filme que havia visto havia sido uma criacao quase que integralmente minha. Como conheco bem Danca com Lobos, nao faria muita diferenca para mim ver o filme com audio em japones. Se o visse pela primeira vez desse jeito, acho que, aih sim, faria diferenca. Achei que valeria contar essa historia nao para provocar o Fabio, mas porque tem a ver com duas coisas em que acredito – a universalidade do cinema e o fato de que nele, sempre, somos co-autores com o diretor. Todo filme soh se completa quando a gente o reformula na consciencia, o que eh uma forma de apropriacao.