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Luiz Carlos Merten

06 Outubro 2006 | 20h00

Acabo de chegar a São Paulo, vindo do Rio, onde o festival terminou ontem à noite. A chegada foi um sufoco, já que Congonhas, normalmente uma zona, ficou ainda pior com o incidente de hoje com o avião da Gol. Não sei o que os outros usuários pensam, mas não é de hoje que, quando chego do Rio com bagagem, fico sempre esperando que tenham contratado alguém da Rodoviária, com prática de movimento de passageiros, para organizar as esteiras por onde circulam as malas (e que são o caos). Seria, talvez, mais organizado, embora o probema, ali, me parece que seja mesmo a exigüidade do espaço. Mas vamos deixar essa reclamação de usuário para lá. Viajando boa parte do dia, não tive muito tempo de postar as novidades do encerramento do Festival do Rio. Os atores, por exemplo. Selton Mello, que revelou ser leitor assíduo deste blog, me perguntou como eu sabia, se alguém me havia contado. Contado o que? Escrevi, no blog e no Estado, que ele incorporou uma persona tipo a de Paulo César Pereio, sendo ator e personagem de si mesmo. Selton contou que, durante a filmagem de O Cheiro do Ralo, virou até folclore da produção. Antes de cada tomada, ele invocava – ‘Baixa, Pereio’, de tal maneira o mítico ator de uma tomada só (é a lenda em torno de Paulo César) virou uma referência para o seu trabalho. Você poderia achar que um ator com o currículo do Selton ia receber meio blasé mais um prêmio de interpretação. Ele vibrou como principiante. Disse, aliás, a Beatriz Coelho, a Totó, repórter do Estado na sucursal do Rio, que já se sentiria vitorioso mesmo sem prêmio, pois exibiu seu filme de estréia como diretor na Première Brasil (o curta O Início do Fim), teve boas críticas e excelente público com O Cheiro do Ralo, que foi um dos filmes mais vistos do festival. O que mais pedir? O Redentor de melhor ator, que recebeu. E que, aliás, dividiu com o Sidney Santiago, de Os Doze Trabalhos. Sidney é uma figura. Estava na aula, bem à vontade, quando o chamaram para ir correndo ao Cine Odeon BR. Sidney chegou de bermuda e acho que de sandália. Subiu meio atordado ao palco, para fazer seu discurso de agradecimento. Foi bonito vê-lo abraçado com o Selton, um querendo dar a primazia da passagem para o outro. A produção não comenta, mas parece que Sidney teve alguns problemas com Fátima Toledo, que preparou o elenco do belo filme de Ricardo Elias. Fátima queria que ele trabalhasse instintivamente a emoção, como faz com os atores não profissionais que prepara. Sidney é ator de teatro, tem técnica, o método parece que não funcionava muito com ele. Repasso o que me contaram. Sidney, Ricardo ou a própria Fátima que comentem, se quiserem. O que eu quero dizer é que Sidney fez um agradecimento emocionante. Dedicou seu Redentor aos motoboys de São Paulo – o filme é sobre eles -, e agradeceu a Milton, a Elisa Lucinda, a Ruth. Disse que sem eles não estaria ali. Milton Gonçalves, Ruth de Souza. Foram pioneiros nessa coisa de mostrar que o ator negro brasileiro, independentemente de cor de pele, pode ser, e muitas vezes é, grande. Sidney é jovem, mas já está prosseguindo com essa grande linhagem que inclui Lázaro Ramos, Antônio Pitanga e Flávio Bauraqui, presente em vários filmes do Festival do Rio (Os Doze Trabalhos, Noel – O Poeta da Vila e outros mais). Paro por aqui. A lista dos grandes atores (e atrizes) afro-brasileiros é muito maior que isso. Os demais sintam-se homenageados, mesmo que não citados, nominalmente.