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Cultura » Atenção na Mostra

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Luiz Carlos Merten

16 Outubro 2008 | 17h24

Não vou me furar, antecipando no blog uma informação que vocês vão ler amanhã no ‘Caderno 2’ e que, tenho certeza, vai alvoroçar as tribos de descolados da cidade. É algo relacionado à Mostra, mas que não tem a ver com o evento, propriamente dito. Como a Mostra começa logo mais à noite, está sendo a nossa capa de hoje no ‘Caderno 2, precedida, ontem, pela entrevista do diretor Marco Bechis, de ‘Birdwatchers, Terra Vermelha’. Aliás, tinha um erro na matéria e foi o próprio Bechis, claro que sem nem desconfiar, quem me induziu a cometê-lo. Ocorre que fiz a entrevista em italiano e o Bechis me disse que havia exibido dois filmes para os índios mato-grossenses que protagonizam a história. Ele achava importante para que soubessem o que ele estava querendo. Um dos filmes era de Leone, ‘Era Uma Vez no Oeste’, que ele citou em italiano – ‘C’Era Una Volta nell’West’. O outro era ‘Os Pássaros’, de Hitchcock, mas como o Bechis também citou em italiano – ‘Uccelli’ -, aquilo ficou na minha cabeça e eu, influenciado pelo som, terminei colocando que o segundo filme era o ‘Gaviões e Passarinhos’ (Ucellacci e Uccellini) , de Pasolini, mas não – foi ‘Os Pássaros’. Isso posto, quero dizer que o nosso título de capa – Cinema de quantidade – refere-se ao fato de que a Mostra vai apresentar 456 filmes de 75 países. Ou seja, ninguém, acho que nem se desdobrando em dez, conseguiria ver isso em duas semanas. Face a essa magnitude, é difícil, senão impossível, buscar um conceito na Mostra. Ela se baseia na diversidade, no humanismo, e apresenta certas linhas de força, certos conjuntos de filmes que podem ser agrupados por suas características mais ou menos comuns. Ou seja, alguns filmes sobre família – ‘O Casamento de Rachel’, de Jonathan Demme, que me encantou no Rio, e dois filmes franceses, ‘Um Conto de Noel’ e ‘Horas de Verão’, de dois queridinhos de ‘Cahiers du Cinéma’, respectivamente Arnaud Desplechin e Olivier Assayas. Acho curioso que ao mesmo tempo, e no mesmo ano, ambos tenham se voltado para o universo familiar. Temos também os filmes de invenção – ‘Aquele Querido Mês de Agosto’, de Miguel Gomes; ‘Rebobine, por Favor’, de Michel Gondry; ‘Alexandra’, de Alexander Sokúrov, que me parece a obra-prima do diretor russo; e ‘A Erva do Rato’, de Júlio Bressane, para não falar do ‘Canção de Baal’, de Helena Ignez, mas esse tenho a impressão que vocês vão achar radical demais. Adoro os dois filmes italianos de Matteo Garrone e Paolo Sorrentino, ‘Gomorra’ e ‘Il Divo’, e acho inclusive que se complementam discutindo a questão do poder na Itália, um desenvolvendo o tema no submundo do crime e o outro na alta cúpula do poder. O interessante é que os dois personagens que representam o poder, o chefe da Camorra, a Máfia napolitana, e o ex-premier Giulio Andreotti, são interpretados pelo extraordinário Toni Servillo, que eu ouso dizer que é hoje o maior ator do mundo, mas que não vai ganhar o Oscar, não mesmo. Só aqui já listei oito filmes que considero imperdíveis da 32ª Mostra. Vamos ao nono, o maravilhoso ‘Loki – Arnaldo Baptista’, de Paulo Henrique Fontenelle, que passa amanhã, em presença do ex-Mutante. Estou sabendo que o Canal Brasil, que produz ‘Loki’, não pretende lançá-lo em cinemas, um pouco porque teria de brigar por um espaço fatalmente pequeno, quando o filme, só no próprio canal, já pega 100 mil espectadores de cara, na primeira exibição. Mas há outra coisa. Para exibir ‘Loki’ nos cinemas, fora do ambiente dos festivais, o Canal Brasil teria de dispender uma fortuna pelos direitos autorais das 45 músicas que compõem a trilha. Na televisão e no DVD, a legislação é diferente, o que possibilita a exibição. Mas a história é que quem perder o ‘Loki’ arrisca-se a ver o filme somente na telinha. Mesmo que fosse num home theater, não seria a telona do cinema e eu tenho cá pra mim que ‘Loki’, o filme, merece tudo de bom. Posso ser exagerado, vocês sabem, mas achei o melhor filme, de qualquer categoria ou formato, que vi na Première Brasil. Gostei de outros filmes, inclusive do ‘Festa da Menina Morta’, de Matheus Nachtergaele, mas emoção como a que me produziu o ‘Loki’, talvez por influência da ovação do público naquela sessão memorável no Cine Odeon BR, não houve nenhuma outra.