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Cultura » Ateísmo e humanismo em Neame

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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2008 | 19h32

Quem me pediu que comentasse a carreira de Ronald Neame? Jean Tulard cita a diversidade da carreira do diretor inglês, que o faz passar do filme de aventuras exóticas ao melodrama e do policial ao conto natalino, exibindo sinais de talento em ‘Fugitivos de Zahrain’, ‘Na Glória, a Amargura’, ‘Gambit’ e ‘Adorável Avarento’ – estava me esquecendo de ‘A Primavera de Uma Solteirona’, com a genial Maggie Smith -, mas, no limite, confirmando, de filme para filme, uma negligência que frustra o espectador. Esta ‘negligência’, que Tulard não esclarece, será formal ou temática? Ambas. De qualquer maneira, tenho cá a minha queda por um filme de Neame, e é por ‘O Destino do Poseidon’, a versão de 1972, pessimamente refilmada por Wolfgang Petersen. O original dos anos 70 é, ao mesmo tempo, precursor e obra-prima da tendência chamada de ‘disaster movie’, quando os EUA viviam um momento de crise – primeiro provocado pela Guerra do Vietnã, como hoje a do Iraque, e logo por conta do escândalo de Watergate. Longe do asentimento crítico da trilogia de Spielberg, Hollywood respondeu àquela outra crise com filmes em que fenômenos naturais ou provocados pelo homem instauravam o caos social e fazia-se necessária a intervenção do Estado e de seus agentes, em nome da lei e da ordem. ‘Poseidon’ me fascina e intriga por sua ambivalência.Com seu nome que remete ao deus grego dos mares, filho de Cronos – o tempo -, o filme conta a história desse transatlântico que, na véspera do Ano Novo, é atimngido por uma omnda e vira de cabeça para baixo. Um grupo de passageiros sobrevive e, liderado por um padre que questiiona a existência de Deus, inicia a subida pelo interior da embarcação. O tema do filme é a assunção, no sentido místico e religioso. Quando, finalmente, o grupo chega ao topo do navio – no que ocorre ser o casco -, ele é de ferro. A solução vem do homem. Outro grupo, de fora, em busca de sobreviventes, ouve o barulho que fazem no casco e abre uma escavação no ferro. A solução vem do homem, não de Deus? Será simples assim? No primeiro dos episódios que compõem a estritura dramática de ‘O Cardeal’, de Otto Preminger, o padre Tom Tryon fica perturbado por causa dessa estátua da Virgem que verte sangue em sua igreja do Deep South. Milagre!, proclamam os fiéis. Na verdade, é um goteira que, incidindo sobre o manto, dilui a tinta. O fenômeno pode ser explicado racionalmente, mas o superior ensina a Tom Tryon que tudo obedece aos desígnios de Deus, porque foi ele quem enviou a chuva, que provocou a goteira etc. O ateísmo de Neame em ‘Poseidon’ – o acento cai a partir de amanhã -, o seu humanismo radical, pode ser uma manifestação do divino. ‘O Destino do Poseidon’ é muito bom. O melhor Neame? Provavelmente. E ainda tem a canção vencedora do Oscar, com o sugestivo título de ‘The Morning After’.