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As veias abertas da América Latina

Luiz Carlos Merten

25 Abril 2017 | 09h56

Pode ser que ainda veja coisas boas na competição brasileira do É Tudo Verdade. Coloco fé, por exemplo, em Mexeu com Uma, Mexeu com Todas, de Sandra Werneck, sobre um tema da maior relevância e atualidade. Mas aqui conosco, e de forma muito íntima, tenho a impressão de que a competição acabou. Vi ontem o filme mais impressionante dessa seleção brasileira – Cidades Fantasmas, do gaúcho (de Uruguaiana) Tyrell Spencer. Pronuncia-se Tai-rél. Em Quem Foi Primavera das Neves, de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo, o ex-marido, um escritor, diz que não quer esquecer e que é importante manter a memória das coisas. Tyrell visita essas quatro cidades – na Argentina, Brasil, Chile e Colômbia. Villa Epecuén, destruída por uma inundação; Fordilândia, construída no Pará pelo norte-americano Henry Fonda no auge do ciclo da borracha e que não sobreviveu ao fim da atividade econômica; Humberstone, cujo apogeu também se liga a uma atividade econômica, a do salitre; e Armero, soterrada pelas cinzas do vulcão Nevado del Ruiz. Em todos esses lugares, os raros sobreviventes que ainda permanecem – como sentinelas, guardiões da memória – contam histórias terríveis e todas elas apontam para a responsabilidade humana. O regime militar, no caso da Argentina; uma combinação de descaso das autoridades e ganância dos responsáveis pela atividade extrativista da droga, na Colômbia; as companhias estrangeiras, a Ford e a que gerenciava o salitre, no Brasil e no Chile. Tyrell citou Eduardo Galeano na apresentação – As veias abertas da América Latina. Os cenários, as ruínas passam esse sentimentos de desolação pelo muito que foi sacrificado e a câmera move-se com elegância, mas também implacabilidade ritualística. Sobre as imagens, as falas – o texto, quase um recitativo. Alain Resnais. Ecos de Noite e Neblina, de Hiroshima, meu Amor. Tenho 71 anos e diante do mistério de cada filme refaço sempre a velha pergunta – o que é o cinema? Numa chego com pré-julgamentos. Espero sempre ser maravilhado. Exulto quando me vem uma resposta. O cinema é… Cidades Fantasmas! O filme concorre em duas mostras –
a brasileira e a latina. Para quem não viu, terá mais uma sessão às 22 h desta terça, na Reserva Cultural.