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Luiz Carlos Merten

04 Novembro 2010 | 15h26

Gosto da urgência da minha atividade como jornalista, da correria das coisas feitas sempre para ontem, e talvez por isso, pela extrema consciência da minha ‘falibilidade’ (existe a palavra?), sou tão atraído por cineastas perfeccioinistas, como David Lean e Luchino Visconti. Meus dois últimos dias foram infernais e me impediram de postar. Ontem, tinha um monte de matérias para a edição do dia do ‘Caderno 2’. O sistema não ajudou. Os computadores travaram no ‘Estado’, a edição atrasou, foi um sufoco. Para complicar, no meio da tarde, corri ao Hotel Tivoli para entrevistar o diretor de ‘Um Homem Que Grita’, o chadiano Mahamat Saleh Haroun. Adorei o filme dele, que é a cara do autor. Conversamos durante quase uma hora e depois procurei, sem êxito, uma lan house. Queria chamá-los para os autógrafos de ‘Os Filmes de Minha Vida’. No ano passado, convidado por Leon Cakoff, integrei a lista dos que participaram da segunda edição da série. O livro foi lançado ontem no Conjunto Nacional, o que me permitiu integrar a mesa com Suzana Amaral, com minha querida Eliane Caffé, Gilberto Dimenstein, Serginho Grossman etc. Apareceram amigos, minha filha, no final fomos jantar, Lúcia, uma amiga dela, a Laura, e eu. ‘Os Filmes da Minha Vida’… Existem dois com cadeira cativa, sempre que o assunto é esse. ‘Rocco e Seus Irmãos’, claro – e  Gabriel Villela ironiza dizendo que vai montar, em minha homenagem, um espetáculo chamado ‘Rocco e Suas Irmãs’ -, e ‘Rastros de Ódio’. O restante pode variar, mas assim como os filmes estrangeiros da vida da gente não são necessariamente os melhores, o ‘meu’ nacional é ‘Selva Trágica’, de Roberto Farias, mas há tanto tempo que não o vejo! Pergunto-me se ainda terá, no meu imaginário, o impacto que teve há quanto? 40 e tantos anos, desde que o vi, acho que em 1965. Conversando com Cakoff e Renata de Almeida, os donos da Mostra, antecipei alguns títulos da repescagem, antes de receber hoje a lista. ‘Carlos’, de Olivier Assayas, sim. “Minha Felicidade’, de Sergei Loznitsa, favoritos desde antes do começo do evento, desde que os vi em Cannes (o primeiro, na verdade, só consegui ver completo no Rio). Mas, no finalzinho da Mostra, na terça-feira, assisti a um filme genial, o único que, para mim, compete seriamente com o russo – ‘As Quatro Voltas’, do italiano Michelangelo Frammartino. Não sei nem como e por quê quis ver esse filme. Ele estava em Cannes, na Quinzena. Perdi, mas ninguém me falou nele. Foi ao folhear o catálogo da Mostra que descobri a sinopse, a imagem, e me bateu que seria especial. É maravilhoso. Guardem o título. “As Quatro Voltas’. A Mostra vai lançar nos cinemas, mas para que esperar, se dá para ver na repescagem?