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Luiz Carlos Merten

01 Fevereiro 2009 | 20h28

PARIS – Vamos aos filmes de hoje… Estão prontos? O primeiro, logo após um almoço rápido, foi ‘Les Plages d’Agnès’. Sei lá, é possível até que tenha passado na Mostra. Leon Cakoff sempre consegue pescar alguma coisa de Veneza para seu evento e não duvido que ‘As Praias de Agnès’ tenha integrado a programação. Não sei nem em que mostra o filme passou no Lido, mas o Leão de Ouro está no cartaz e, portanto, lá esteve. Eu, se o tivesse visto, teria botado a bica no trombone. É maravilhoso. Olivier Père, diretor artístico da Quinzena dos Realizadores, quando o entrevistei, me havia falado maravilhas do novo filme de Agnès Varda, mas creio que nem citei ‘A Praia’ na matéria que saiu no ‘Caderno 2’. É um documentário, e autobiográfico, o que coloca de saída um paradoxo para a aurora – ‘Como vou falar de mim, se o que me interessa no cinema é a possibilidade de me confrontar/dialogar com o outro’, pergunta-se Agnès V. A praia – as praias, no plural – viram metáforas, desde as de sua infância até aquela em que situou ‘La Pointe Courte’ e, depois, a outra em que passava o verão com o marido, Jacques Démy, e os filhos. Agnès leva suas praias para Paris, velejando no Sena ou então cobrindo de areia e instalando guarda-sóis no asfalto da Rue Daguerre, em que mora. Nunca houve um documentário como ‘Les Plages d’Agnès’ – eu, pelo menos, nunca vi. A vida de Agnès, desde a Bélgica, onde nasceu, até Paris, onde se integrou à nouvelle-vague, percorre décadas da história da Europa (e de seu cinema). Aos 80 anos, ela fala de tudo – sexo, nazismo, holocausto, fotografia, filmes, casamento, família. Jacques Démy foi seu amor, seu marido, seu tudo. Quase 20 anos depois da morte de Jacquot de Nantes, ele é um dos mortos (com Jean Vilar, Gérard Philippe, Maria Casarès etc) que Agnès carrega consigo. Adorei rever as cenas de ‘La Pointe Courte’, ‘Cléo das 5 às 7’, ‘Le Bonheur’ (As Duas Faces da Felicidade) e ‘Sans Loi Ni Toit’. Gostaria muito que Jean-Thomas Bernardini e André Sturm, os distribuidores brasileiros (da Imovision e da Pandora) que mais fazem pela divulgação do cinema francês no País, ‘importassem’ o filme para o prazer dos cinéfilos. Só lamento não ter entrevistado a Varda durante os ‘Encontros do Cinema Francês’. O filme dela não havia sido comprado e eu dei preferência aos títulos com lançamento garantido. Ah, se arrependimento matasse… Espero não apenas que ‘As Praias de Agnès’ seja lançado como ela, que já visitou o País com Démy – tenho certeza de que foram a Minas, Ouro Preto -, integre a caravana do cinema francês que visitará Rio e São Paulo em junho, dentro da programação do ano França/Brasil.